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O reencontro

Eram três da tarde quando Lufe desceu para comer. Esse era o maior indicador de que as coisas não estavam muito bem com ele: a falta de fome. Acordou às oito, se remexeu na cama, enrolou, acordou, foi para o computador e, sem café da manhã, foi almoçar às três da tarde. Sem nenhum apetite. Pois que desceu, cabisbaixo, pensando, ora na sua vida financeira que parecia escorrer por um ralo enquanto a sua vida pessoal escorria pelo outro, as duas competindo para ver qual desmorona primeiro. E, ao levantar os olhos, dá de cara com Anna, saindo do seu prédio, com a irmã. As duas sorriam, Anna principalmente. Ele sabia que Anna tinha o incrível e às vezes assustador hábito de conseguir soltar o sorriso falso mais lindo do mundo, mas continuava sendo lindo, e ele nunca sabia quando era falso ou não. E, agora, falso ou não, continuava lindo.

Faria um ano na próxima semana que eles terminaram. E terminaram como num filme do Almodóvar: brigar, objetos jogados, palavrões etc. Depois disso só se encontraram uma vez. Ele puxou assunto, sem ter o que falar. A conversa durou alguns segundos, até Anna dizer que tinha que ir embora, que estava namorando e que o sexo era ótimo. Ninguém perguntou, mas Lufe não tinha nada que ir puxar assunto. Depois disso foram meses e meses de silêncio.

Para Anna, um mistério, para Pedro, o fantasma continuava ali, e, agora, a alguns metros dela, mais ainda. Ela entrou no carro da irmã e ele tentou seguir impávido para o bar onde almoçaria. Almoço este que durou exatos onze minutos, e, como dizia a sua avó, quando ele acabou, parecia que tinha mais comida do que quando ele começou. Se já estava sem apetite antes, imagine agora. Anna ainda mexia com ele, e, quer ela estivesse fingindo o sorriso ou estivesse feliz mesmo, foi um soco no estômago. Não que ele não quisesse a felicidade dela.

Acabou de almoçar e foi ler em uma praça próxima. Se sentou e, entre uma lágrima e outra, fingiu ler para que as crianças não percebessem aquele marmanjo tentando segurar o choro. Quando uma voz atrás dele o surpreendeu. Era Anna:
– Você deve estar muito mal mesmo. Em sete meses eu nunca consegui te assustar, você estava sempre atento, ninguém chegava por trás de você sem você ouvir. E agora eu podia ter pulado em cima de você e você nem ia notar. – Ela disse.
– Eu não teria essa sorte…
– Que?
– Nada. Eu senti seu cheiro, mas achei que tava imaginando. Aliás, faz tempo, você deve estar aí há muito tempo.

Ela se sentou no chão, na sua frente.

– Tô sim, tava te olhando.
– Hum.
– Eu nunca tinha pensado nisso, mas foi nessa praça, nessa posição, com você aí sentado no banco e eu aqui sentada no chão, que você falou pela primeira vez que estava apaixonado, que me amava e que você me pediu em namoro.
– Eu lembro. E lembro das nossas brigas aqui nessa praça também.
– Não dá pra esquecer, né…
– É… Nem a parte boa, nem a ruim
– Por que você veio falar comigo? Você falou mal de mim no seu blog, pras suas amigas, falou que o sexo era ótimo com seu namorado da última vez que eu te vi, mesmo eu sabendo que você só queria me atingir. Pra que você veio falar comigo?
– Sei lá. Eu tava entrando no prédio e vi você aqui.
– Aí veio falar o que? Que além do sexo ótimo seu namorado é rico? Bonito? Que escreve melhor que eu?
– Essa parte não ia te ofender porque você acha que ninguém escreve melhor que você.
– Ninguém não, pouca gente, e acho difícil estatisticamente você encontrar um deles. Mas fala, veio falar de como a sua vida tá maravilhosa e próspera sem mim?
– Não, Lufe, não vim. Só vim te ver, sei lá.
– Só me ver? Aham.
– Por que você fica tanto na defensiva comigo?
– Por que será, Anna? Porque você tem o dom de pegar o ponto fraco de alguém e enfiar o dedo. Que nem um tigre que morde e mexe os dentes uns centímetros pra pegar exatamente na carótida.
– Nossa…
– Porra, Anna! Minha vida tá uma merda, eu tô duro, minha vida sentimental está um caos, eu venho pra praça chorar sem ninguém me ver e você aparece!
– Eu só queria te ver…

Lufe consente com a cabeça e levanta a cabeça, tentando fazer com que aquelas lágrimas malditas voltassem para o lugar de onde elas vieram.

– Lufe, a minha vida não tá uma maravilha também. Eu voltei pra faculdade sim, tô conseguindo estudar, me concentrar, tô tratando a minha depressão. E tô namorando sim, e não vou falar sobre ele.
– Não precisa. Ele deve ser um cara esplêndido, que não explode, que não faz grosseria, que te entende, que te bota pra cima. O contrário de tudo do qual você me acusou.
– Eu tava com raiva.
– Aham.
– E se você quer saber, ele é um cara super normal. A gente se dá bem pra caramba, ele me trata bem.

Lufe fica quieto.

– Fica tranquilo, não vou falar que ele é nada nem que a gente é nada. Ele é mais velho, é uma relação mais séria.

Lufe levanta, irritado, e dá um soco e uma lixeira próxima.

– RELAÇÃO SÉRIA? CARA NORMAL? SE DÁ BEM PRA CARAMBA! EU NUNCA ME DEI BEM COM NINGUÉM COMO ME DAVA COM VOCÊ! A GENTE NÃO TINHA UMA RELAÇÃO SÉRIA, VOCÊ ERA UMA PALHAÇA QUE ANDAVA NO BANCO DO CARONA CANTANDO MAL DE PROPÓSITO, PRA ME IRRITAR, E EU ADORAVA! EU NÃO ERA UM CARA NORMAL, EU ERA UM CARA QUE EXPLODIA, QUE FICAVA IRRITADO, MAS QUE TE AMAVA E FAZIA TUDO POR VOCÊ, QUE TE LEVAVA NA FACULDADE SEIS DA MANHÃ DE PIJAMA PORQUE QUERIA TE VER BEM! VOCÊ NÃO MERECE UM CARA NORMAL, UMA RELAÇÃO SÉRIA, OU “SE DAR BEM PRA CARAMBA!”. VOCÊ MERECE ALGUÉM COM QUEM VOCÊ POSSA SER VOCÊ MESMA, CANTAR QUE NEM UMA DÉBIL MENTAL NO CARRO E ME FAZER FICAR EM DÚVIDA SE TE MATO OU SE TE PEÇO EM CASAMENTO! RELAÇÃO NORMAL É A PUTA QUE PARIU!

Lufe acabou de dar outro soco na lixeira, deu uma volta em torno do banco e encostou a cabeça na grade. Ele fala, tentando controlar a respiração:

– Você não merece uma vida mediana, normal.
– E eu mereço o que? Aquela coisa doentia que a gente se tornou no final? As ofensas? As agressões?
– Não, você merece passar o dia correndo de praia em praia pra tirar uma foto em cada uma. Você merece viajar 150km pra passar dois dias em um chalé. Você merece alguém que te veja atuar e sinta o orgulho de um pai que vê o filho advogado virar diplomata! Você merece um namorado que sente na porta do seu quarto e espere a sua depressão passar, e que não levante a porra da bunda de lá até você ficar boa. É isso que você merece. E não um namoro de cinema quarta-feira, jantar sexta e sexo duas vezes por semana. Tem gente que é feliz assim, você não.
– Mas eu não era feliz com a gente.
– Era sim!
– E por que VOCÊ terminou?
– Por que quando a gente não era feliz a gente se fazia muito mal. Mas você foi muito feliz comigo. E eu também fui, e é por isso que eu to aqui tendo esse ataque de pelanca.
– Por que você não tá feliz?
– Não, e você tá? Com todo o seu talento de atriz, e você é um gênio, olha na porra da minha cara de diz que você está feliz!

Anna o encara com um misto de raiva e indiferença.

– Eu tive que levar a vida. Você também.
– A gente podia ter sido o casal mais feliz dessa merda desse mundo. O mais de todos, pra dar inveja em todo mundo. Mas a gente preferiu tentar se matar.
– É. A gente preferiu.
– Por quê???
– Se eu soubesse….

Lufe pega seu livro do chão e coloca debaixo do braço.

– Vou embora, tá? Eu não tô muito bem não.

Anna olha para a lixeira.

– Nem percebi…
– Desculpa as besteiras que eu falei.
– Eu tô acostumada.
– Eu também, mas hoje, incrivelmente, você se controlou.
– Tô ficando velha, me controlando mais.
– E eu tô ficando mais velho que você, me controlando menos.

Anna o abraça. Ele retribui com um braço só, reticente.

– Beijo, se cuida. Vê se fica bem…

Lufe assente com a cabeça, se afasta uns passos de costas, como se estivesse tirando uma fotografia mental dela. Ela continua linda. Depois ele se vira e vai andando. Anna fica parada e se senta no banco. Ela olha para o lugar onde ela estava sentada, onde ouviu que era amada, onde foi pedida em namoro, e fala, sozinha:

– Se você soubesse… Eu sei que você não acredita em nada, mas essa praça ainda vai ver muito a gente.

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