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O teste do caiaque

Depois de caminhar por vários minutos, Sofia tirou o par de chinelos e fincou os pés na areia da Praia da Ferradurinha. Ao se deparar com aquela paisagem estonteante, diferente do que estava acostumada a ver na Cidade Maravilhosa, seus olhos se fixaram em um dos atrativos daquele paraíso. Em seguida, foi tomada por um desejo infantil, daqueles que precisam ser saciados de qualquer jeito: queria andar de caiaque. Imediatamente, com um olhar cara-de-pau, carinhoso e com um quê de cachorro que paquera frangos vendidos em padaria, ela se voltou para o noivo e pediu para que ele a acompanhasse naquela aventura.

Fábio tinha pensado apenas em tomar sol e dar alguns mergulhos no mar para relaxar, mas cedeu depois de ouvir comentários da namorada feitos de meia em meia hora dizendo que o programa era divertido e que queria matar a saudade do que já tinha feito quando ainda estava no início da adolescência, ao visitar Búzios pela primeira vez. Tomaram algumas caipirinhas, beliscaram alguma coisa e lá foram os dois.

Para economizarem dinheiro que poderia ser investido em alguns bem-casados, preferiram remar juntos, no mesmo barco. Por decisão da responsável pelo aluguel dos caiaques, Fábio foi empossado como comandante – por ter mais força – e Sofia se acomodou na frente do pequeno barco, na condição de co-pilota. A princípio, tudo parecia simples: deveriam remar juntos, sincronizados, tomando cuidado para segurar os remos no centro e para não deixá-los desalinhados dos ombros. Era só contar 1, 2, 1, 2….

Logo nas primeiras remadas, era visível a falta de sincronia entre ambos.

– Amor, é pra fazer 1, 2, 1, 2… Esquerda, direita, esquerda, direita… – disse Fábio.

– Mas eu sempre começo a contar da direita – retrucou Sofia.

– Mas, desta vez, faça diferente. Comece a contar da esquerda – emendou o rapaz, tentando pôr fim ao empasse.

Ela olhou pra frente, fechou a cara, mas tentou esfriar a cabeça. Não valia a pena estragar um dia lindo de sol por uma bobagem. Continuou a remar e, após alguns minutos, voltou a se irritar. Queria que ele contasse um pouco mais devagar já que, por estar à frente do barco, não tinha como antecipar as ações do comandante. Começou a contar um pouco mais devagar em um tom de voz um pouco mais alto, na esperança de que ele notasse de que ela não tinha a mesma desenvoltura com o remo de dez anos atrás. Como guardou para si a informação, Fábio não percebeu e continuou mantendo o ritmo forte. Quis dar uma acelerada depois de ver um moleque mais novo remando sozinho e veloz de forma bem safa. Desconcentrada, Sofia errou a coreografia e ele subiu tom da voz, ainda tentando ser carinhoso:

– Esquerda, direita, esquerda direita… Amor, vamos mais rápido. Temos só vinte minutos e quero visitar aquela praia logo adiante.

– O problema é que estamos perto das pedras e não quero bater nelas. É perigoso.

– Não vamos bater, confia em mim.

– Eu estou aqui na frente vendo tudo.Vamos sim. Está perto demais.

O início de “DR” foi interrompido por um vento forte que acabou quebrando e arremessando a barraca dos dois. Foram obrigados a dar marcha ré e retroceder até terra firme. Logo que arrumaram as coisas, Fábio apressou a noiva para retomar o caiaque. Ainda faltavam 15 minutos de passeio. Nesta altura, ela já não estava mais tão empolgada para remar a dois. Achava que seria mais fácil fazer tudo sozinha, do seu jeito, mas para não gerar um clima ruim, entrou para o barco e jurou para si mesma que tentaria ser mais tolerante. Sua paciência durou até o instante que voltaram a se a aproximar das pedras.

– Eu já disse que não é para chegar tão perto. Se pintar uma onda forte…

– Mas não tem onda tão forte aqui

– Mas eu tenho medo e não quero bater nas pedras.

– Sabe qual o problema? Você não confia em mim. Sempre acha que não vou dar conta

– É que você deixa tudo para o último momento.

– Você é ansiosa demais.

– Ai, tem um bicho ali. Eu vi, eu vi… – Disse repentinamente, mudando o rumo da prosa – Será que é um tubarão?

– Olha lá a cabeça. É uma tartaruga. Quando digo que é ansiosa, não acredita… Confia em mim não vai bater.

Sofia se segurou para não continuar o bate-boca e, mentalmente, começou a rezar para todos os santos que conhecia, pedindo para que os dois sobrevivessem. Ao ver que estavam próximos da tal praia que Fábio queria ver, ela fingiu ser a pessoa mais otimista e tranqüila possível, mas acabou soltando instintivamente a poucos passos da areia:

– Está perto demais. Vai bater.

– Não vai.

E, de fato, bateu. Imediatamente, Sofia mandou um sarcástico “eu não disse” que deixou Fábio irritado e envergonhado. Tentando contornar a situação, ele garantiu que havia como os dois saírem do barco para empurrá-lo. Só não calculou que o ponto onde a noiva estava era o mais escorregadio, o que levaria ela a tomar um tombo daqueles.

Prontamente, ele saiu do barco, ajudou a levantá-la e os dois se dirigiram até a praia. Ao pisarem novamente na areia, se olharam, e sem dizerem nada, chegaram à conclusão de que estavam quites por não confiarem completamente um no outro. Com um abraço, se perdoaram. Passaram alguns minutos e ficaram olhando as coisas deles lá de longe.

A volta foi tranquila e rápida. Remaram sincronizados por cerca de três minutos, tomando cuidado de um se ajustar ao ritmo do outro. Ao se sentarem nas cadeiras, se olharam e deram um sorriso. Ali, tiveram a certeza de que haviam passado em uma espécie de simulado para viver como marido e mulher. Pouco depois, pediram mais duas caipirinhas e saborearam o resto de fim de tarde.

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