Esta foto é sua?

Oi, sumido

Oi, sumido. Tudo bem por aí?

Confesso que, durante um bom tempo, não foi nada fácil acordar e ter que lidar com a sua ausência. Tomar café da manhã e ter que lidar com a sua ausência. Subir no ônibus e ter que lidar com a sua ausência. Trabalhar e ter que lidar com a sua ausência. Voltar para casa e ter que lidar com a sua ausência. Dormir e ter que lidar com a sua ausência. Perdi as contas de quantas vezes chorei e de quantas outras disfarcei o choro. Por semanas a fio, os velhos olhos vermelhos foram aquela máscara que a gente veste e que nos cai tão bem, mas tão bem, que garra no rosto e não há força nem jeitinho que a arranque.

Eu me vesti de depressão. Do longo e cinza traje da depressão. Foram dias sem sol e noites sem sono. Foram cinco quilos a menos e cinco pílulas a mais. Foram tempos de tormento, em que levantar da cama já era uma vitória. Em que me concentrar uma hora e meia num besteirol americano qualquer já era viver. Em que me motivar quinze minutos que fossem para cozinhar um arroz já era o bastante pra agradecer de joelhos. Não consegui dispensa do trabalho, não consegui dispensa da faculdade, não consegui dispensa da vida. Tive que seguir, embora a minha vontade mais genuína fosse pedir pro mundo parar, que eu queria descer.

Durante uns meses, eu fui a personificação da parábola da infeliz cujo marido sai pra comprar cigarros e não volta mais. Deu dez da noite e você ainda não havia voltado. Deu meia-noite, enchi o seu celular de chamadas perdidas. Deu duas da manhã, pensei em dar parte na polícia. Deu quatro, caí no sono. Deu sete, acordei para trabalhar. E você ainda não havia comprado o seu maldito cigarro. Deu meio-dia, vi seu check-in na rodoviária. Você estava vivo. Deu três dias, chegou um e-mail de despedida. Um bonito, porém covarde e-mail de despedida.

Que eu só estou respondendo hoje, trinta e nove dias mais tarde. Espero, do fundo do meu coração, que você esteja bem. Porque eu, pouco mais de três meses depois do seu desaparecimento, estou ótima. Na semana retrasada, fiz um bazar na garagem com todas as roupas que você deixou aqui. E bombou. Na semana passada, voltei à academia. E já posso sentir meu corpo mais firme. Anteontem, cortei o cabelo. E não houve quem não elogiasse. Ontem fui trabalhar de batom vermelho. E meu ego, massageado, agradeceu. Eu já tinha ouvido dizer que grandes traumas mudam a gente. Mas que eles operam milagres, ah, isso eu só descobri há pouco.

O que eu vou fazer hoje? Olha, não tenho nada de especial programado. Mas certamente, vai ser um dia bom. Sexta-feira, né? Dia de tomar uns bons drinks num barzinho com as amigas, de dançar até o chão num inferninho da Augusta, de viver sem se preocupar com o amanhã, de transar com alguém novo. E por mais que a programação seja ficar no sofá, sob as cobertas, assistindo a um filme ou lendo um livro, há de ser um dia bom. Mais um dia sem o seu carinho mecanizado, sem o nosso sexo automático, sem o seu “eu te amo” procedimental. Sem o seu cheiro de cigarro, sem a sua surdez por conveniência, sem o seu olhar censor sobre o meu comportamento. Sem a sua companhia distante, sem as suas piadas sem-graça, sem a possibilidade de ter que lidar com o seu eventual sumiço. Mais um dia em que me desintoxico da sua presença.

Que você continue sumido. Que você tenha muita saúde. E que você seja feliz. Mas tão feliz que sequer lembre que eu, um dia, já existi na sua vida. Quanto menos sinal da sua negatividade no meu radar, meu caro sumido, melhor pra mim. Bem melhor pra mim.

Comentários