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Paz para gozar quando, como e se a gente quiser

– Apenas gozarás com muita concentração. E olhe lá.

Escreveu o último mandamento da desgraça da mulher e foi embora. Largou aquela tábua pesada aos pés de toda a ala feminina da humanidade, e a gente ficou aqui, meio sem saber o que dizer. Ou o que sentir. Ou o que fazer. Ou como fazer. Porque se orgasmo é mesmo tudo isso que os privilegiados falam por aí, não conseguir experimentá-lo só pode ser penitência. Ou incapacidade. Ou simplesmente a sina de ter nascido com uma reentrância entre as pernas, um par de peitos para estufar as camisetas e um duplo X, que ser for trissômico dá um trabalho danado.

E aí a gente começa a pesquisar as dicas e os segredos para atingir o orgasmo feminino. Usar gel aqui, tentar um vibrador acolá, ficar na posição assim, tentar uma preliminar assado – considerando sempre que sexo e prazer são uma receita de bolo. Justamente como aquelas que você leu naquele livro da Dona Benta que a sua mãe deu pra sua avó de presente de aniversário. Como se duas xícaras de chá de leite, três ovos e uma colher de sopa de manteiga equivalessem a duas lambidas, três apalpadas e um tapinha. Depois é só colocar no forno que não tem erro. Como se, mais uma vez nas nossas vidas, o histórico, tudo aquilo pelo qual a gente já passou, não valesse de nada.

E a gente já passou por muita coisa… A mim não interessa saber se você já teve um orgasmo ou se você tem vinte todos os dias. A vocês não interessa como eu gozo, se eu gozo ou se eu deixo de gozar. Blog feminino, blog feminino – intimidades à parte. Mas a todas nós interessa uma coisa sob a qual vivemos desde que viemos ao mundo: a repressão sexual feminina. É absurdo uma mulher admitir que se masturba – se for desde a adolescência, então, a coisa fica pior ainda. É ultrajante uma mulher ter tido mais parceiros sexuais do que um homem – já que chave boa é aquela que abre toda fechadura, mas fechadura boa é aquela que se abre com uma única chave. É feio uma mulher contar que consome pornografia para se inspirar – mas homens podem, inclusive, trocar o sexo com a parceira por horas e horas na frente de YouPorns, PornTubes e um mundo virtual de bundas e peitos. É vagabundice uma mulher transar na primeira noite – assim como é viadagem o homem recusar o sexo no primeiro encontro. É vadiagem uma mulher pedir a um parceiro sexual que ele faça com ela qualquer coisa que fuja do script me-pega-de-jeito-me-joga-na-cama-e-me-faz-ver-estrelas – só palavras limpinhas e atos que não choquem a sociedade, please.

E enquanto o pensamento predominante continuar esse, sinto muito, mas a gente vai continuar sem gozar. Se toda expressão da sexualidade feminina que não seja usar um decote a serviço da felicidade masculina é considerada errada e digna de punição com cinquenta chibatadas, que cabeça a gente tem pra gozar? Se a gente tem que se preocupar primeiro com o que ele vai achar da nossa depilação, da nossa calcinha, da nossa barriga, dos nossos peitos, das nossas celulites e das nossas estrias, que cabeça a gente tem pra gozar? Porque gozar, ó, tá na cabeça. Antes de ser uma atividade sexual, é uma atividade criativa. De imaginação. De treino – do corpo e da mente. É um negocinho gostoso que leva muito tempo e muita maturidade para ser sentido e entendido sem autorrepressão.

Por isso, você, homem que julga a sexualidade de toda mulher que não seja a sua irmã, não reclame se a sua namorada não gozar com você. Você, mulher que chama a amiguinha da faculdade de vaca só porque ela aparenta ser mais bem resolvida sexualmente do que você, não se espante se nunca tiver um orgasmo. E você, querido ser humano que diz que luta para que a mulher goze, mas que afirma categoricamente que mulher que só consegue gozar por estimulação clitoriana ainda não saiu da adolescência, pense duas vezes. Ninguém aqui precisa de julgamento e de dedo apontado na cara. A gente precisa mesmo é estar em paz para gozar quando, como e se a gente quiser.

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