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Pelo direito de ser mulherzinha

Corro o risco de apanhar de algumas feministas radicais, mas confesso esse ser meu momento desabafo. Fui criada por mulheres que enfrentaram o mundo de acordo com suas convicções. Minha mãe, em suas próprias palavras, nunca deixou um homem mandar na sua vida porque ninguém pagava as suas contas. Há gerações, as Garmendias são mulheres fortes, extremamente independentes e geniosas, que sempre fizeram tudo sozinhas e nunca precisaram de um homem nem para abrir um pote de geleia de Damasco ou consertar uma lâmpada quebrada.

Foram poucas as vezes em que vi minha mãe chorar e, em sua maioria, era aquele choro de raiva, tão forte e intenso quanto ela. Às vezes me sinto perdida no meio dessas mulheres. Sou muito mais doce e sensível. Sou mais dengosa, melindrosa, manhosa e até chorosa. Diferente delas, eu sou um pouco menos independente do sexo masculino do que convenciona como “certo” a nossa sociedade. Percebi isso nos primeiros dias após a separação com o ex-namorado. De repente, me vi parada no meio da rua. Literalmente, pois meu carro “simplesmente” deixou de andar. Não era bem a questão do carro não funcionar. Era só minha falta de vergonha na cara de esquecer que, obviamente, o tanque de gasolina não se enche sozinho. Na verdade, era ele, que me lembrava dessas coisas. Eu até ficava furiosa e brigava dentro de mim dizendo: onde já se viu ele imaginar que eu precisasse tanto dele.

Naquele momento do problema com o carro, minha mãe teria arregaçado as mangas do vestido, empurrado o carro sozinha, caminhado de salto alto até o próximo posto de gasolina, comprado um litro de combustível, voltado até o carro, enchido o tanque, arrumado as mangas do vestido, passado um batom e teria saído da situação com tanta naturalidade quanto quem troca de roupa num sábado de tarde. Eu não. Eu permaneci parada por algum tempo e nem saí da frente do volante.

Depois da minha inércia, fui tentar encontrar o tal “triângulo sinalizador”. Deixei o carro no meio da rua – ainda bem que não era uma via movimentada. Foi quando passou alguém buzinando e me xingando. Eu havia bloqueado a rua inteira. De repente, o mesmo carro deu ré e voltou na minha direção. Juro. De dentro dele saiu um príncipe. Ok, não vou exagerar, isso já foi fruto da minha imaginação fértil e talvez produto dos desenhos da Disney que eu passei anos da infância assistindo. Voltando à realidade, saiu do carro um senhor bem prestativo, ele foi buscar gasolina e resolveu o problema para mim.

E aí eu pensei: toda mulher deveria ter o direito de, vez ou outra, ser socorrida. Minha mãe não precisa de ajuda, ela é forte, um mulherão; eu sou uma mulherzinha. E não vejo isso como um demérito. Não que eu precise de ajuda, mas tem horas que, mesmo sem precisar, eu quero ser salva. Pode ser síndrome da donzela em perigo, mas esse texto não é sobre estereótipos sexistas. O que eu quero reivindicar é o meu direito de poder ser mulherzinha quando todos dizem que você deve ser um mulherão. Às vezes. Meu direito de ter que pedir para um amigo me levar numa oficina de carro para eu não ser feita de trouxa pelo mecânico que me cobraria um preço mais alto simplesmente por eu não fazer ideia para quê serve um radiador de carro.

Pelo meu direito de gritar toda vez que vejo uma barata, lagartixa ou um besouro com características marcianas, por mais que eu saiba que os coitados nunca vão me fazer mal algum. Pelo meu direito de ficar triste quando quebro uma unha. Pelo meu direito de sair correndo para não pegar chuva nos cabelos recém-saídos do salão de beleza. Pelo meu direito de assistir um filme de terror, me assustar como uma criança e chamar alguém para dormir comigo porque fiquei com medo. Pelo meu direito de não entender a maioria dos esportes e achar que futebol americano é igual a pique-bandeira. Pelo meu direito de não saber o que é uma chave Philips. Pelo meu direito de ser chata, cheia de frescurinhas, dengosa, melindrosa, manhosa e até, quem sabe, chorosa. E pelo meu direito de não ser mais fraca por causa disso. Pelo meu direito de ainda assim ser uma mulher forte que aguenta as pancadas da vida, mas que, vez ou outra, deseja ser resgatada desse mundo assustador e cruel.

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