Frederico Elboni por Frederico Elboni

Pessoas desproporcionais

Eu sempre digo que há encontros na vida que são desproporcionais. Encontros que, de início, nos fazem bem, nos brilham os olhos e os fios dos cabelos, e, às vezes, dão até aquele gostinho de eternidade, mas que, aos pouquinhos, dia após dia, desrespeito após desrespeito, vão te fazendo morrer aos poucos. São encontros que, sem perceber, nos fazem perder a nossa autoestima, a nossa essência e a vontade de ser admirado, o nosso brio de homem ou mulher, a nossa esperança de que continuar sendo amor é sempre a melhor escolha. E morrer aos poucos, quando o assunto são os sentimentos, é sempre uma dor que corrói, que come das beiradinhas sem nem se importar se o prato ainda está quente.

Pessoas desproporcionais são pequenas desesperanças, são pessoas que não carregam um potinho de sensibilidade e empatia consigo e descarregam em nós, mesmo que sem querer, todas as suas frustrações, fraquezas e traumas. Alguém que não oscila como você, que não vê o mundo como você – e provavelmente nunca verá –, que não tem esse respeito que, acreditem, vem de espírito, dificilmente saberá valorizar quem você realmente é. E por mais que as diferenças gritem – e elas devem existir – e esperneiem como uma criança em pleno parque num final de semana, o respeito sempre deverá ser uma similaridade. E quando digo desrespeito não digo somente de palavras ríspidas em tom alto ou agressividades, de traições ou descasos pequenos, mas da falta de incentivo nos sonhos, na falta de compreensão na hora que os pés não tocam mais o chão, na hora que as dúvidas surgem e não temos mais com quem dividir.

Sempre que me relaciono com alguém, a primeira coisa que, com minúcia, observo, é como essa pessoa olha para o mundo. Pois, para mim, quando alguém respeita o mundo, as pessoas, as particularidades e as diferenças dos outros, ela também saberá respeitar um amor; seja ele como for. Se ela não consegue nem respeitar o mundo em que vive, as diversidades, ou, em alguns casos, os próprios pais ou antigos amores, como ela saberá me respeitar? Não me importa se será eterno, passageiro ou uma lembrança-sorriso de um feriado que passou, desde que saiba se entregar na hora de amar, de pedir perdão, de assumir suas fragilidades, e, sem vergonha ou medo, olhar nos meus olhos e dizer que errou, que acertou, que foi feliz.

Manter uma relação refém da estabilidade e, como se fosse plausível, usar argumentos como “mas ele é uma boa pessoa” é viver preso numa bomba relógio. Ser uma boa pessoa é o mínimo! Ser companheiro é o básico! Te respeitar não é protocolo ou compromisso assumido, mas coisa de princípio, de essência. Relações abusivas, tristes, obsessivas ou unilaterais, são como um pedacinho de papel que não podemos guardar na gaveta do nosso criado-mudo por tempo indeterminado, para, quem sabe, um dia, ler. Precisamos nos livrar desses pequenos bilhetes, inofensivos e cheios de mágoa que guardamos. Se a felicidade não está no agora, no presente momento vivido, ela não virá às pressas quando você precisar. Se não há mais alegria no toque, no respeito que a alma e os ideais pedem, não há motivos para ficar. Não importa como começou, se foi intenso, lindo, libertador ou colorido, se já conheceu a família inteira ou se vocês já têm a benção de um filho pequeno; uma história linda do passado nunca é argumento para viver uma relação sem respeito no presente.

Eu sei, demoramos para absorver, mas, qualquer hora, a gente aprende que a nossa positividade, infelizmente, nunca mudará a negatividade de quem carrega todas as verdades absolutas na testa. E, acredite, eu sei como isso soa triste… mas quem disse que não é para ser? Se doar inteiramente a quem, no fundo, bem no fundinho, sabemos que não irá mudar para melhor, é pedir para se afogar junto a um mar de tristezas. É suplicar para se perder nas profundezas e, sem ao menos perceber, se ver escoando num mar de fundo azul, que, pouco a pouco, vai se tornando menos azul, menos azul, e cada vez menos azul… até que, um dia, quando se der conta, você se encontrará sozinho, cheio de cicatrizes, desacreditado, no fundo de um mar que de azul pouco tem.

Então, suma, fique sozinha, more numa toca, mas, por favor, não fique com quem não te respeita e não oscila como você, pois, se o presente não está alegrador, não será o passado, mesmo que bonito, que manterá as alegrias com folego.

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