Esta foto é sua?

Preciso me perdoar

De frente para os pedaços de nós espalhados pelo chão da sala, a minha vontade era só ter engolido mais um ou dois sapos, ter bebido soda cáustica ou chorado no colo de alguém, mas, sobretudo, te desdizer tudo aquilo que acabei vomitando na sua cara. Em você. Queria não mais ter dito tudo aquilo que foi impossível para mim, conter. Juro. Juro. Fiz tudo que era humanamente possível para evitar o fim, mas ele chega para todos nós.

Qualquer relação é marcada por altos, baixos, mas a nossa… A nossa já se rastejava. Era quase que um desencontro. Como se você falasse alemão e eu mandarim. Nem bem entendia as tuas frases de efeito de timbre alto, nem conseguia me fazer entendível.

O problema de qualquer discussão é que a gente sempre acha os melhores argumentos e as melhores afirmações para fazer e dizer, depois que já não é mais possível. Depois que todos os pilares que sustentavam aquelas duas pessoas foram apedrejados verbalmente até que não restasse nada realmente sólido que pudesse justificar qualquer coisa além. Qualquer coisa durável. Até que não haja mais como apagar as ofensas, as verdades dita um na cara do outro.

Eu só queria te desdizer tudo aquilo que acabei vomitando na sua cara. Era muito melhor ter posto um fim sem sal, sem graça, ter engolido tudo calado e seguido em frente. Seguido o meu rumo. Meu caminho. Minha história. Sem dizer nada. Nem sequer uma única palavra além de – obrigado. Obrigado pelas partes boas, mas vamos varrer tudo que poderíamos ser e não fomos, para debaixo do tapete dos dias. Para debaixo do tapete do esquecimento.

Juro. Juro. Fiz tudo que era humanamente possível para evitar o fim, mas ele chega para todos nós. E agora, fica na minha memória a imagem dos pedaços de nós espalhados pelo chão da sala. Os meus olhos marejados, os teus olhos tristes. As nossas cabeças conturbadas, atordoadas, de pensamentos, emoções, de vontade que tudo aquilo, simplesmente, fosse um pesadelo e nós fossemos acordar e perceber que foi só uma noite mal dormida entre dois dias felizes.

A verdade precisa ser dita. Sentida. Preciso me perdoar. Preciso acalmar meu coração. Não mereço engolir mais sapos, arrotar tristezas ou beber soda cáustica para dissolver todas as amarguras que, durante muito tempo, curei nos colos de outros alguéns. Qualquer relação é marcada por altos, baixos… Fiz de tudo que era humanamente possível para evitar o fim, mas ele chega para todos nós.

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