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Quando o frio vira uma fria

Poucas coisas nesse mundo causam mais discórdia do que um aparelho de ar condicionado. Que atire a primeira pedra quem nunca brigou por causa dele. Tá bom, não precisa ter saído na mão. Mas basta você ter frio ou calor, um pouquinho de brios e estatura suficiente para fazer sombra no chão que é certeza: você já desejou, senão a morte, pelo menos um encolhimento peniano de três centímetros àquele cara chato que, por algum motivo que até Freud desconhece, é o tutor do controle do ar condicionado.
 
Porque controles de ar condicionado têm sempre um tutor. E como o diabo não é bom nem deus é justo, o tutor é sempre a pessoa com menos senso de temperatura possível. Ou a mulher na menopausa ou o moço que nunca tira aquele mesmo suéter de lã, faça o calor que fizer. E aí, é inevitável: nos dias de frio lá fora, 45°C dentro; nos dias de calor lá fora, -15°C dentro. E é aí que nasce a discórdia mais legítima desse mundo.
 
Outro dia, eu tava num escritório de contabilidade. Daqueles, assim, bem pequenininhos, familiares. Caras feias, mau humor pra todo lado, aquela tensão pesada no ambiente. Torta de climão era o que definia a atmosfera daquele lugar. A mãe brigara com a filha, que brigara com o pai, que brigara com o irmão, que brigara com o sobrinho. Tudo isso por causa do maldito ar condicionado – fiquei sabendo tempos depois.
 
Deu separação. A Lima Almeida Serviços Contábeis não existe mais. Dona Maria Lima hoje se casou com um coroa boa pinta e foi morar na Sibéria, onde as temperaturas médias do verão ficam em torno dos 13°C. Seu Charles Almeida juntou os trapinhos com uma nordestina arretada e foi viver lá no Cariri, sertão da Paraíba, onde, no inverno, os fios de cabelo só se mexem com um assopro na orelha. Fernanda Lima Almeida embarcou pra um mochilão pela América do Sul – com passagem só de ida. Seu Ives Almeida, irmão do seu Charles, virou passeador de cachorros. E Juliano Lima Almeida casou-se com J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história.
 
Por isso, pense bem antes de vangloriar o criador do ar condicionado nesses dias de calor insuportável que assola o Brasil inteiro. Lembre-se da gripe quase suína que você contraiu no verão passado porque ficou oito horas diretamente exposta ao jato resfriado. Lembre-se da vergonha que você passou por ter tido que tirar o casaco de lã no meio do escritório, justo no dia mais frio do ano, em que você tinha saído pra trabalhar com aquela camiseta de político por baixo da blusa. Antes de endeusar Wills Carrier, ponha a mão na consciência, camarada. Você não sabe quantas famílias ele já separou, quantos casamentos ele já levou pro buraco ou quantas justas causas ele já não provocou.
 
E quem nunca brigou por causa dele, que atire a primeira pedra. Bem ali, ó, na porra do ar condicionado.

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