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Quantas histórias incríveis você já preferiu não ouvir?

Venho de uma família com uma longevidade incrível. Tem uma baciada gente aqui que dura mais de 90 anos. Alguns ultrapassaram os cem, e ninguém morre antes dos 70. Sei que já contei essa história algumas vezes pra algumas pessoas. Inclusive pra vocês. Mas é que isso traz algumas implicações à minha vida. Uma delas – e talvez a mais óbvia – é conviver com bastante velhinho.

E conviver com velhinhos é uma arte. Porque eles são tão carentes quanto uma criança. Tão fofos quanto uma criança. Às vezes, tão dependentes quanto uma criança. Com a diferença de que a experiência de vida deles bota a nossa no chinelo, sai pra bater perna na 25 de março a volta cheia de sacola. A Dona Ada mesmo: 83 anos, filha mulher mais nova de 12 irmãos. Aos 17, foi convidada pra ser dama de companhia da esposa de um banqueiro riquíssimo que estava de mudança para Nova Iorque. Lá, poderia estudar o que bem entendesse – até piano. Não foi, porque o pai não deixou. Todas as outras filhas já trabalhavam em casa de família, e ela não teria a mesma sina. Ficou. Com os estudos até a quarta série, a casa pra limpar, um fogão e uma pia de louça por dia e a roupa dos pais e dos irmãos solteiros pra lavar e passar.

Seu Antônio é outro que tem história. Parou de estudar na primeira série. Mal sabe ler e escrever. Mas foi um pedreiro tão bom, mas tão bom, que os engenheiros de obra viviam batendo à porta da casa dele, pedindo pra ele fazer cálculo de material. Ele não cobrava nada. E fazia. Fazia prédio, casa na colônia italiana onde passou a infância, casa de bacana com piscina na cobertura, igreja. Até os oitenta anos, ele fez. E se a gente deixasse, tava subindo em telhado pra bater laje até hoje, aos 87.

Tem também a Dona Angelina. 96 anos, mora sozinha e toda sexta, religiosamente, toma três chopes e come um espetinho no bar ao lado de casa. Perdeu o marido, os três filhos e a calopsita, que morreu de absorver a sua tristeza. Já começou, inclusive, a perder alguns irmãos mais novos. Sabe aquelas personagens de conto de fadas que são amaldiçoadas com o dom da vida eterna? Parece a Dona Angelina. Todo mundo vai, e ela fica. Mais uns anos vou eu, e ela chega ao bicentenário.

Tem a bisa Maria, que achava que aquelas bonequinhas que falavam eram gente. Tem as irmãs da bisa Maria, que morreram aos 103 e 107 anos. Tem o tio Bastião, que tomou coice de cavalo na cabeça aos 2 anos de idade e cresceu meio trelelé, jurando e contando pra toda a vizinhança que era gaúcho quando, na verdade, nasceu em Santa Rita do Passa Quatro, cidadezinha do interior de São Paulo.

São tantas histórias que impressionam. Seja pela desconexão com os dias de hoje. Seja pelas habilidades de super herói das pessoas anonimamente célebres. Seja pelos ares fantásticos da vida simples dessa gente comum. E como eu sei de tudo isso? Conversando com cada um desses velhinhos. Mas conversando de verdade. Parando, escutando, perguntando. Indo além de simplesmente reclamar do frio e do calor pra cumprir a função fática da linguagem.

Tem cada ser humano incrível, com cada história de vida incrível… Mas a gente só quer saber de nós mesmos. E do seriado novo da Netflix. E do livro novo do Nicolas Sparks. No máximo, do drama pessoal dos nossos crushes, que é pra dar um ombro amigo e tentar descolar uma transadinha na sexta à noite. De velho, a gente quer distância. Dão trabalho, não conhecem Two Door Cinema Club, não sabem o que é Pokémon Go. Nunca foram na Woods, nunca mexeram num smartphone, usam roupas muito last season. Não têm embasamento teórico pra discutir Bauman, nem os posts do Buzzfeed, nem os memes da Internet.

Azar o nosso.

P.S.: Dona Ada é minha avó, Seu Antônio é meu avô (de quem eu puxei a habilidade de bater uns PFs e não engordar um grama) e Dona Angelina é minha tia-avó, irmã da Dona Ada. Sorte a minha <3

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