Esta foto é sua?

Quanto tempo faz que você se foi?

Hoje, meu bem, a casa está cheia da sua ausência. Parece que tudo aqui quer me lembrar de que você já não está mais. De que a felicidade já não está mais. De que os seus braços já não estão mais. De que o riso se calou, dando lugar a uma corredeira de lágrimas. De que a companhia se foi para que a solidão pudesse, enfim, reinar absoluta. De que o que era eu e você hoje sou só eu, assombrada pelos fantasmas que a sua outrora presença deixou em cada canto desse lar.

À mesa, ainda ponho dois pratos, muito embora um deles apenas sirva como sousplat para moscas e poeira. À pia, o restinho do nescau que você tomou na manhã da nossa despedida secou na sua caneca preferida. Na lista de favoritos da TV, os canais ainda são aqueles de esporte a que você, independente das circunstâncias, assistia. No parapeito da janela do quarto, ainda repousa o cinzeiro cheio das bitucas daquele cigarro fedido que você fumava para morrer aos pouquinhos.

Quanto aos lençóis, ainda não tive coragem de trocá-los. Neles ainda mora muito de nós. Em cada nódoa amarelada do nosso suor, em cada vinco que os nossos corpos faziam no tecido, em cada fio de cabelo nosso que ainda repousa no mesmo travesseiro. Sequer a cama eu arrumo, meu bem, pra não perder o formato que o seu corpo deixou no nosso colchão.

Nas noites em que a sua ausência dói mais, sorvo uma cerveja num gole só, que é pra anestesiar toda essa dor. Ligo a TV, que é pra driblar o silêncio ensurdecedor que você deixou. Tomo um banho gelado, que é pra lavar a alma e deixar todas as angústias irem ralo abaixo. Como ainda não inventaram um remédio para tanta dor, qualquer paliativo me serve. Nem que seja um entorpecente. Nem que seja um placebo. Nem que seja um veneno.

Já não sei, meu bem, quanto tempo faz que você se foi. Desde então, o calendário é uma eterna repetição de dias sem sol. Sábado e segunda-feira têm absolutamente o mesmo efeito sobre meu corpo. O relógio está parado num trânsito de angústias. Cada segundo é mais um murro na cara de uma lutadora já nocauteada e humilhada no octógono.

E muito embora eu sequer consiga mensurar tamanha dor, meu alívio mora em saber que, enquanto foi tempo, meu bem, eu não lhe poupei amor.

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