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Quase todo fim começa com um fingimento

Há muitas coisas que eu não entendo. Eu não entendo o frio que faz em avião, não entendo a moda do coque-samurai, não entendo por que o meu arroz sempre empapa. Eu não entendo como funciona o fax, não entendo por que picolé virou paleta e nem as pessoas que se ocupam cuidando da vida sexual alheia. Eu entendo de muito pouca coisa, é verdade. Mas das coisas que eu não entendo, fingimento é uma das que eu entendo menos.

Não falo daquele fingimento inocente que a gente pratica quando diz gostar da comida da tia ou estar interessado numa aula sobre progressão geométrica. Falo de fingimento de verdade. Aquele que a gente pratica para enganar. Enganar todo o mundo. Principalmente a gente.

Não sei por que nos ensinam a fingir tanto nos relacionamentos. Fingir que não estamos com ciúme. Fingir que não nos importamos. Fingir que queremos namorar. Fingir que não queremos namorar. Fingir que gozamos. Que gostamos. Que ainda amamos.

Quando paro para pensar nos meus piores relacionamentos, percebo que o segredo para o fracasso foi o fingimento. Foi quando eu fingi que também gostava de heavy metal que as coisas começaram a azedar. Foi quando eu disse que tudo bem fazer sexo casual; que eu também não queria namorar. Foi quando eu fingi não me importar com a lua em escorpião, com a mesquinharia e com hábito de comer pizza todos os dias. Foi quando eu comecei a fingir que o relacionamento começou a acabar.

Fato é que quando há paixão, a gente sempre tenta encaixar. Damos um jeito. Fingimos que dá. Tentamos nos adaptar a relacionamentos incompatíveis porque as pessoas que fantasiamos são realmente mais fáceis de amar. Mas ora ou outra, por amor ou por dor, aprendemos que fingir é uma das poucas coisas que nos priva das delícias de realmente amar.

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