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Que a nossa vida seja um eterno carnaval

O Carnaval acabou. A fantasia rasgou, a poeira baixou, o folião sossegou. A rua, que até ontem estava tomada por palhaços, ciganas, piratas e Madonnas, hoje se inunda da nada poética poeira que os encanamentos vomitam por aí. As casas, que até ontem eram cerveja e papo toda a madrugada e sono e sexo toda a tarde, hoje são despertadores que, sem gentileza, cospem seus moradores das camas. O ócio, que até ontem era lei, hoje é crime. Vai trabalhar, vagabundo.

E a gente vai. Com medo, mas vai. Afinal, quem é que vai amparar o arlequim que mora dentro de nós? Quem é que vai enxugar as lágrimas do nosso pierrot? Quem é que vai contar pra nossa colombina que ela é livre pra dançar? Sem o Carnaval, a gente volta para a insuportável sina de ser quem o mundo quer que a gente seja. Um bom homem de negócios. Uma boa engenheira. Um jornalista dedicado. Uma advogada exemplar.

Alguém cheio. De compromissos, de problemas, de tristezas. Que geralmente são mascarados aos finais de semana. Uma cervejinha aqui, uma baladinha ali: bocas raivosas trocando saliva. Um bom rodízio, um bom restaurante: bocas raivosas mastigando pedaços de carne. E por uns minutos, a gente chega a achar que está tudo bem. Afinal, a gente tem um bom emprego. Uma boa casa, com um bom cachorro e bons filhinhos para pentear antes de irem para a escola. Uma boa família, com uma mãe que lava, passa e cozinha, enquanto o pai se senta no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes – e a Itaipava na mão –, esperando a morte chegar.

Mas surpreendentemente, quando o domingo anoitece e a impiedosa abertura do Fantástico ressoa pelas TVs país afora, a gente percebe que não está tudo bem. O coração aperta. A gente prefere que chegue o juízo final à manhã de segunda-feira. Porque, no fundo, a gente sabe que a felicidade é uma doutora com agenda disponível apenas entre as 18h de sexta e as 23h de domingo. A gente sabe que os próximos cinco dias vão ser infernais – pelo menos das 9h às 18h. E a gente sabe que só vai voltar a ficar tudo bem, bem mesmo, na próxima sexta, depois das 18h.

Ou nas próximas férias. Ou feriado. Ou Carnaval. Quando todo mundo sorri. Quando todo mundo ama. Quando quem é de Netflix fica na frente da TV o dia inteiro e quem é de bloquinho pula na rua o dia inteiro. Quando a gente é livre pra ser o que a gente quiser. Sem julgamento de pai ou mãe. Sem doutrinação religiosa. Sem imposição de mercado.

Que a vida não é um infinito mar de rosas a gente já sabe. E diante da impossibilidade de nadar diariamente entre pétalas, há só uma coisa que eu te desejo: que a sua vida seja um eterno Carnaval.

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