Esta foto é sua?

Quem realmente é você?

Quando você afirma: “esse sou eu”, talvez não saiba muito ao certo o que está dizendo. Três exemplos claros disso podem nos ajudar.

1- Quando você ouve sua voz gravada ela tem um tom e uma gravidade bem diferente do que você ouve na caixa acústica da sua cabeça.

2- Quando olha uma foto tem sempre um leve estranhamento pois sua imagem registrada é verticalmente oposta àquela que vê no espelho todas as manhãs.

3- Quando alguém fala sobre um determinado comportamento seu que nunca se deu conta que tinha surge novamente uma sensação de incredulidade, afinal, você juraria que jamais fez algo parecido.

Mas isso não é pegadinha do malandro, apenas uma falha cognitiva e ideológica que alimentamos com a cegueira de um morcego com o radar quebrado.

A realidade, tal como você a percebe, é uma fagulha muito pequena da complexidade de eventos que compõe aquilo que chamamos de realidade. Explico. Imagine que está numa festa, bêbada e dançando loucamente como uma dançarina de pole dance e se sentindo a estrela mais brilhante do lugar. Imediatamente sua mãe entra e você escorrega como uma gosma até o chão, levanta cambaleante, tenta arrumar o cabelo despenteado, respira fundo e se aproxima dela. Onde está aquela ninfa sapeca que sambava como se fosse a própria libido em forma de gente? Provavelmente ela deu lugar à filha querida que pretende agradar e não decepcionar a mãe que tem batalhado duro para pagar os estudos dela, já que o pai desapareceu quando tinha 3 anos de idade.

De um minuto ao outro a dançarina bêbada deu lugar à filha. O que aconteceu ali se as duas são a mesma pessoa? Não somos únicos, mas sim uma teia de relações internas que nos compõe e se modifica minuto a minuto.

O que chamamos amor, por exemplo, jamais pode ser levado como se fosse o mesmo por todos. Existe um significado de amor único para cada uma das 7 bilhões de pessoas nesse planeta. O que significa que o meu amor é o Amor-Frederico-Mattos que em vaga medida pode ser transmitido via linguagem para que outras pessoas entendam, mas mesmo assim será minha forma única de dizer da minha experiência dentro da minha conjuntura pessoal, minha personalidade e história de vida.

O fato de falarmos a língua portuguesa nos confere a ilusão de que estamos falando das mesmas coisas, mas a semântica, ou seja, o significado que uma palavra tem está carregada de muitas variáveis que sofrem uma distorção pelo ruído entre comunicante e ouvinte.

Lamento informar, mas o seu amor é diferente do seu namorado querido. Ele ama outra pessoa, aquela que está na cabeça dele e que jura de pés juntos que é você, mas com raras exceções é você de fato. Aquilo que você chama de seu melhor amigo é composto de uma série de características que ele mostra exclusivamente para você (que não representa a inteireza dele) e cruza com suas expectativas em relação a ele e como se posiciona na lista de importância que dá na sua vida. Não é a pessoa real, mas uma projeção imaginária e fragmentada daquela pessoa. Isso se comprova quando ela mostra uma faceta que contrasta com as nossas expectativas e nos chocamos por ver algo que estava fora da nossa previsão sobre ela.

O bom senso que tanto gostamos de recorrer, portanto, é uma utopia, pois apesar de regras supostamente claras de como agir, ainda assim ela passa pelo crivo de cada dentro da sua legislação interna que muitas vezes é mais permissiva ou autoritária do que a regra consensualmente estabelecida.

A noção de eu está bem longe de ser o que pensamos. Antes que certa angústia paire pela sua cabeça e o leve a uma visão radicalmente desconstrucionista e niilista de tudo, pense que essa visão pode dar uma grande liberdade para que repense com muito carinho e cuidado com quais filtros tem enxergado a “realidade” e como quer conduzir a trama da sua vida.

Nem sempre é agradável saber disso, mas é fundamental.

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