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Reencontrando o sabor de viver com “Patch Adams”

O assunto hoje é piscina de macarrão. Acho impossível não se lembrar de Patch Williams – O amor é Contagioso, estrelado pelo saudoso Robin Adams. Acho que troquei né? É que existem personagens que embolam nosso poder de associação, e a gente faz essas misturas, quase sem-querer.

O recorte da história de Patch começa com o protagonista sendo internado voluntariamente em um hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio. Ao conhecer alguns pacientes, acaba ficando fascinado pelo comportamento dos internos, surge então um laço empático que promove a grande mágica da história. O futuro médico sente que através desse entendimento pode começar a ajudar essas pessoas. Entra para um curso de Medicina e mesmo sendo mais velho do que os outros alunos, passa a investigar o mundo da gentileza obsoleta que paira sobre a lida médica.

O tema da desumanização da Medicina é a grande questão do filme e o que move Patch é justamente a intenção de alterar tal quadro. É impossível não pensar em como um médico lida com a perda cotidiana de pacientes, numa profissão com tantos índices de suicídio envolvendo estudantes, talvez conviver com a morte, em algum momento se transforme em um fardo pesado quando tal fato se converte em algo rotineiro. No longa, o personagem se infiltra no hospital da Universidade e começa a desenvolver maneiras lúdicas de se relacionar com os pacientes terminais ou com crianças que sofrem de doenças graves.

Como era de se esperar, Patch começa a atrair a antipatia acadêmica com o seu método subversivo e sofre perseguições por parte da direção, sendo obrigado a organizar a recepção de um congresso de ginecologia e nos brindando com a irônica cena das pernas abertas na entrada do ginásio. Esse episódio quase acarreta ao aluno a expulsão do curso, mas ele se salva pelas notas boas e consegue continuar, só que agora com restrições quanto a sua entrada na clínica.

Passear por esse filme é entender que a história do mundo é cheia dessas pessoas que foram consideradas malucas, mas que promoveram mudanças poderosas, por terem ido em frente mesmo assim. Quantos malucos entre nós só serão levados a sério décadas depois? Quantas mudanças maravilhosas não deixaram de acontecer porque alguns malucos desistiram ou foram impedidos no meio do caminho? A maluquice de Patch vai criando ramificações, até que um centro de cuidados médicos humanizados é organizado numa iniciativa de cooperação realizada entre amigos que topam instituir a ideia.

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O momento emocionante do filme acontece no inesquecível discurso em que o médico defende seu propósito ao ser contestado pelo conselho de Medicina:

“Que tem a morte de errado?
Por que temos esse medo mortal?
Por que não tratamos a morte
com humanidade, dignidade, decência e até com humor?
A morte não é o inimigo.
Se quiserem enfrentar um mal,
enfrentem o mal da indiferença.”
(…)
“Todo ser humano
causa impacto nos outros.
Por que evitar a relação entre 
paciente e médico?
O que ensinam está errado.
A missão do médico deve ser
não apenas de evitar a morte…
mas melhorar a qualidade de vida.
Tratando o mal, se ganha ou se perde.
Tratando o indivíduo,
garanto que vão ganhar, independente do desfecho.
A sala está cheia
de estudantes de medicina.
Não se deixem anestesiar pelo milagre da vida.
Sempre se extasiem pela glória do corpo humano.
Concentrem-se nisso,
não em procurar notas…
que não indicam o tipo
de médicos que serão.
Não esperem demais para
recuperar a humanidade.
Aprendam a entrevistar.
A falar com estranhos.
Com amigos, “enganos”, com todos!
Cultivem amizades com essas
pessoas incríveis, as enfermeiras.
Cuidam de pessoas dia após dia.
Têm muito que ensinar,
bem como os professores, que não têm o coração gelado.
Aprendam a ter compaixão.
Quero ser médico
de todo meu coração.
Queria ser médico
para ajudar o próximo.
Por causa disso, perdi tudo.
Mas também ganhei tudo.
Compartilhei das vidas de pacientes
e pessoal do hospital.
Rimos e choramos juntos.
Quero dedicar a vida a isso.
E hoje, seja qual for sua decisão,
juro por Deus que vou chegar a ser
o melhor médico de todo o mundo.
Podem impedir que eu me forme.
Podem me negar o título
e a bata branca.
Mas não podem dominar meu
espírito nem evitar que aprenda.
Não podem me impedir de estudar.
Portanto, têm uma escolha. Podem
me ter como um colega apaixonado…
ou como um intruso,
mais ainda inquebrantável.
Seja como for,
ainda vou ser um espinho.
Mas prometo, vou ser um espinho
que não podem arrancar.”

Penso que esse lindo exemplar da sétima arte é o predileto de tanta gente por trazer mil lições valiosas em apenas uma. Filmes com lições, por mais clichês que pareçam, nos despertam uma vontade de ficar mais um pouco, de sorrir, de falar com estranhos, de conversar com a morte de uma maneira menos traumática, de sorrir pra loucura ou inventar mil vidas em apenas uma. É tão bom relembrarmos que ainda dá tempo.

Fico por aqui com uma das cenas mais lindas do cinema:

 

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