Reencontro: A história real de Júlia e Rita Esta foto é sua?

Reencontro: A história real de Júlia e Rita

Júlia está caminhando pelo mercado quando vê Rita olhando para o alto, tentando alcançar algo. Julia, maior, es estica para ajudar, enquanto fala.

JULIA: Você ainda toma esse iogurte todo dia? Meu Deus, eles devem ter um prédio com o seu nome na fábrica!

Rita pega o produto sem prestar atenção e depois olha para Julia espantada. Julia sorri.

RITA: Uau, Julia… Oi, é, caramba, quando tempo! Tá fazendo o que aqui?

JULIA: Vim comprar pão, na verdade.

RITA: Não, não aqui no mercado, to perguntando o que você tá fazendo aqui em Niterói. Você não tinha se mudado pro Recreio com o… Marcelo?

JULIA: Marcos.

RITA: Isso, Marcos! Então, você não tava morando com ele no Recreio?

JULIA: É, tava… mas a gente se separou.

RITA: Putz, desculpa, não sabia…

JULIA: Não tem problema. Tá tudo bem.

RITA: É, você parece bem mesmo.

JULIA: Tô bem sim, eu que terminei.

RITA (sorrindo sem jeito): Sempre você que termina, né.

Julia dá de ombros, como quem diz “pois é”, meio sem graça.

RITA: Mas que que houve? Quer dizer, se não quiser falar, não precisa.

JULIA: Não, queísso, não tem problema não. Ah, a gente era muito diferente e tal, não deu certo. Nenhum motivo grave. Quer dizer, tirando o fato de que eu percebi que eu gosto mesmo de mulher, né?

RITA (debochada): Jura? Nossa, você disfarça muito bem. A gente namorou por dois anos, e se você não tivesse falado agora que gosta de mulher eu nunca teria percebido isso. Me enganou direitinho durante dois anos!

Julia ri.

RITA: Mas sério, isso nunca foi novidade, né, você não se separou do Marcelo por causa disso.

JULIA: Marcos.

RITA: Isso, Marcos.

JULIA: É, não foi exatamente por isso, mas foi também. Você foi a minha primeira namorada, eu era muito nova. Nunca tinha ficado com mulher, só tinha namorado homens antes de você. E com você foi muito intenso…

RITA: Eu sei, você fazia questão de me lembrar a cada cinco minutos que eu era intensa demais.

JULIA: Ah, Rita, para… Isso faz muito tempo. E não foi só por isso que não deu certo. Minha família não aceitava.

RITA: Olha, Julia, eu não quero entrar nessa discussão, mas o seu pai largou a sua mãe pra se casar com o contador dele na Argentina. E a sua mãe, bom, a sua mãe vive curtindo as minhas fotos no Facebook com as minhas namoradas, sem falar que eu vendo os docinhos pro restaurante dela…

JULIA: O papai tava confuso, foi uma fase.

RITA: Uma fase maior que a fase da água no Super Mário, porque ele ainda é casado com o contador. Cara, seu pai conseguiu fazer um contador fazer uma loucura? Tem que ser muito gay pra isso!

Julia ri.

JULIA: É, não foi por isso mesmo… Meus pais te adoravam. Aliás, todo mundo te adorava. Meus amigos, meus primos, minhas amigas, meus pais, Rita, a minha terapeuta ficou falando de você durante dez sessões depois da gente terminar. Ela disse que se a gente voltasse ela deixaria a gente fazer terapia de casal de graça! Ninguém entendia (fala zombando, imitando alguém falando de maneira bem solene) “como você pôde terminar com a Rita, ela era uma menina tão boa!”. Ninguém entendeu nada.

As duas riem e Rita alfineta.

RITA: Nem eu.

Rita fala e fica esperando a resposta de Julia, que olha para baixo fingindo que olha para alguns produtos. Depois, Julia pega um produto qualquer e coloca no carrinho. Rita ri e zomba.

RITA: Nossa, você ainda come esse biscoito fedorento! Odeio esse troço! Só de ver esse saco eu imagino o cheiro e já me irrita.

JULIA: Você odeia tudo, né. Tudo te irrita.

RITA: Pois é, você também não me deixava esquecer isso…

Rita fala fitando Julia que, novamente, abaixa a cabeça. Rita pega um produto e coloca no carrinho de Julia.

RITA: Toma. Sem mim por perto você pode comer pistache à vontade sem o cheiro me incomodar.

Julia fica um pouco contrariada. Elas continuam andando e pegando produtos. Rita, de novo, fita Julia por alguns segundos. De repente, ela para, para o carrinho de Julia e começa a falar.

RITA: Você não vai me falar o que aconteceu? Já faz seis anos. Você terminou comigo por SMS e sumiu. Você não me atendeu mais, seus pais só falavam que você não queria falar comigo. Que que houve?

Julia se desvencilha do braço de Rita e continua andando e pegando produtos. Rita vai atrás dela. Julia fala sem olhar para Rita.

JULIA: Muita coisa, Rita. Muita coisa. Foi tudo junto. Era a primeira vez que eu ficava com uma mulher e ela já queria casar comigo!

Nesse momento, ela pega um produto, não o coloca no carrinho e fala com Rita com o produto na mão.

JULIA: Rita, eu tinha 22 anos, eu tinha tido só dois namorados, nunca tinha nem beijado uma mulher, e a primeira mulher que eu beijei na vida queria casar comigo sete meses depois desse beijo! Eu te amava, mas era demais!

RITA: Demais? Eu te amava, nós éramos felizes! A gente se dava bem, a gente conversava sobre tudo, a gente se entendia! A gente nunca brigou, em sete meses!

JULIA: Exatamente! Era tudo bom demais, eu tinha medo de ficar muito sério e depois eu me arrepender! Perceber que me precipitei, sei lá! Eu morria de medo!

RITA: Eu sei, Julia, você me falava isso o tempo todo! Mas precisava fugir daquele jeito? Sem explicar nada? Com um SMS???

JULIA: Rita, se eu conversasse, você ia me convencer. Eu não tava aguentando! Eu não aguentaria ser a menina de 22 anos casada, ainda mais ser a menina de 22 anos casada com uma mulher! Foi demais pra mim!

RITA: E você acha que pra mim não era? A mulher mais nova que eu já tinha ficado tinha trinta e três anos, e, de repente, eu estava loucamente apaixonada por uma menina que ainda tinha a sua coleção de Barbies e dormia com bichinhos de pelúcia! Foi difícil pra mim também, mas eu te amava!

JULIA: Eu também te amava!

Rita perde o controle.

RITA: AMAVA PORRA NENHUMA! PORRA NENHUMA! Se amasse não tinha me largado daquele jeito! Se amasse não teria começado a namorar um cara um mês depois!

Julia olha ao redor, com vergonha das pessoas.

JULIA: Óbvio que eu te amava, Rita. Mas o meu medo falava mais alto. Eu não tava pronta pra casar, muito menos com uma mulher!

RITA: Com uma mulher, pode até ser, mas você casou com o Marcelo um ano depois.

JULIA: Marcos

RITA: Dane-se

Rita fala isso e se volta para a prateleira do outro lado, e finge olhar uns produtos escondendo o rosto. Julia dá a volta e se coloca na frente dela.

JULIA: Rita, tenta entender. Eu ia ser a única menina da minha turma da faculdade casada. E com uma mulher. Eu era nova demais, eu não sei se ia aguentar, ia acabar descontando em você. E você é tão intensa, era tão apaixonada, eu tinha medo de te magoar não querendo andar com você em público e essas coisas.

RITA (sem olhar para ela): Claro, porque eu não queria uma mulher, eu queria um cachorrinho pra desfilar com ele em público, né? Caguei pra todo mundo, eu só queria estar com você.

JULIA: Eu sei, eu também queria, e…

Rita explode novamente

RITA: Julia, você não queria porra nenhuma! Se você quisesse, a gente estaria juntas até hoje! Você não teria se casado com aquele engomadinho, eu não teria tido que me mudar pro Chile pra tentar te esquecer! Se você quisesse você teria passado por cima de tudo, como eu passei pra assumir um relacionamento com uma pessoa treze anos mais nova! Se você quisesse, a gente tava aqui, hoje, fazendo compras para fazer um jantar romântico para nós duas! Porra!

Rita fala isso e se encosta em seu carrinho. Julia fala sem olhar para ela.

JULIA: Desculpa. Desculpa o jeito que eu terminei, desculpa não ter tido coragem. Me desculpa.

RITA (enxugando as lágrimas, apressada): Tá bom, Júlia, tá bom. Deixa isso pra lá, agora já era. Não tem porque a gente discutir isso agora. Eu to indo, tá? O Ringo tá sem ração e eu tenho que voltar rápido. Bom te ver, se cuida.

Rita fala isso e vai embora. Julia fica a observando.

**PASSAGEM DE TEMPO

Rita está em casa vendo TV, quando a campainha toca. Ela vai até lá, abre. É Julia, com algo nas mãos. Ela estende as mãos e fala com Rita.

JULIA: Você ainda gosta de penne à carbonara? Sem iogurte pra sobremesa.

RITA: E já esqueceu o Marcos?

JULIA: Não era Marcelo?

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