Se o Brasil é uma merda, a culpa também é sua – Sobre o nosso complexo de vira-lata Esta foto é sua?

Se o Brasil é uma merda, a culpa também é sua – Sobre o nosso complexo de vira-lata

Sobe timeline e desce timeline em meados da tão temida e tão odiada Copa do Mundo de 2014, a gente encontra um texto de uma suposta escritora holandesa destacando os pontos fortes do Brasil em comparação a países com um nível de desenvolvimento mais avançado, como Estados Unidos, Inglaterra e a própria Holanda. Em contrapartida, um link desmentindo – ou pelo menos desquailificando – quase todos os argumentos da holandesa vem servindo de arma de defesa para os entusiastas do o-brasil-é-uma-merda, tinha-que-ser-brasileiro, não-vai-ter-copa, vergonha-desse-país, a-frança-é-bem-melhor-porque-tem-brioche ou coisa que o valha.

Antes que os mais animados comecem a se manifestar, não, isso daqui não é banheira do Gugu pra disputar quem marca mais pontos nem vestibular pra ver quem acerta mais questões. Acredito, de fato, que o discurso da suposta holandesa seja um pouco inflamado demais. Todo mundo sabe, por exemplo, que a gentileza não é lá a marca dos cariocas – vá ao primeiro restaurante de Botafogo e confira – ou que, por mais que quase 98% das nossas crianças entre 6 e 14 anos estejam estudando – e isso é um dado do Ipea –, ainda precisamos melhorar a qualidade do ensino e a capacidade física das escolas. E ainda que tenhamos o direito e a obrigação de denunciar tudo o que acontece de ruim no nosso país, a pergunta que não quer calar é: será que o complexo de vira-lata é realmente a melhor alternativa que nos cabe para lidar com os – inegáveis – problemas do Brasil?

Certamente não. E se em tempos de compra da refinaria de Pasadena o “tinha que ser no Brasil!” já foi proferido à exaustão, imaginem em tempos de Copa do Mundo. A abertura foi vergonhosa, o futebol está vergonhoso, a malha aérea é vergonhosa, a indústria hoteleira é vergonhosa, os serviços são vergonhosos, nosso inglês é vergonhoso. Greve no metrô às vésperas da abertura? Só no Brasil – ignorando completamente o fato de que, em 1998, o metrô da França também entrou em greve dias antes do início da Copa no país. Desvios de dinheiro para construir obras faraônicas (para a Copa, inclusive)? Coisa de brasileiro de merda, só pode ser – dando de ombros aos 120 bilhões de euros que a corrupção desvia na Europa anualmente. Voos atrasados durante um evento de tamanha grandeza? Tinha que ser esse paisinho de ~terceiro mundo~ – esquecendo de colocar na conta o fato de que nosso índice de atraso desde o início da Copa está em 6,5%, contra os 8,4% registrados na Europa em 2013.

Não. Isso não é um levante de patriotismo, mas apenas uma chamada pelo seu bom senso. Se o Brasil é tão merda assim, sinto lhe dizer, mas você é que é o grande merda da história. Que puxa saco de gringo, elogiando a educação deles, mas fechando os olhos à simpatia e hospitalidade do brasileiro que, se não teve educação formal para tanto, se desdobra em mil para tentar falar e compreender o idioma do europeu. Que se acha cult por curtir rock gringo e denigre qualquer música popular brasileira sem sequer notar que David Bowie, nos anos 70, cantava coisas como “suck, baby, suck, give me your head”. Que mete um “você esperava o quê do povo brasileiro?” sem perceber que, invariavelmente, é parte desse tal desse povo, é criador dessa cultura tão ~detestável~ e é replicador de posturas que tanto condena.

Por isso, em vez de subir aos céus e analisar o Brasil do plano espiritual, como se você não fizesse parte dessa massa, que tal se inserir no contexto e pensar no que você pode fazer para mudar a situação que tanto o desagrada nesse país? Se estivéssemos conformados com um “Brasil de merda” há 40 anos, muito provavelmente teríamos sido ainda mais subjugados por uma ditadura militar. Se estivéssemos conformados com uma “tarifa cara para um transporte público de merda”, certamente não teríamos conseguido a revogação do aumento do valor o transporte público em 2013. Se nos conformássemos com a nossa ~vagabundagem~ e acreditássemos que toda a nossa desgraça é fruto da mestiçagem, não teríamos constituído um povo trabalhador, hospitaleiro e querido por nativos de todos os lugares do planeta.

Depende – também – de nós. Como sempre dependeu.

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