Foto: Val Jencks

Sensível e perdida no mundo…

Mariana sempre foi quietinha. Tinha sonhos lilás. Desenhava bonecas com cabeça de frutas nas carteiras do colégio, ria de forma contida, arrumava o cabelo nos breves momentos em que ninguém a via. Ela não gostava que os outros achassem que ela estava tentando ficar bonita. Mesmo que fosse. Escrevia num caderninho que somente ela sabia a existência. Não, não era um diário, ela dizia que a vida dela nunca fora tão interessante assim para ter historias diárias. Mariana, pernas tortas ao sentar, abraço de pouca entrega até conhecer quem está abraçando; uma menina grande demais para o mundo em que vivia.

O tempo, como a vontade de desenhar bonecas com cabeça de frutas, passou. Ela cresceu, aprendeu a se empoderar com as pequenas coisas que lhe surgiam; se sentia mais leve e feliz por ser quem era. Tinha até um cachorro e, mesmo que fosse duro e estranho de admitir, era o seu melhor amigo. Mas, sei lá – dizia ela. Com o tempo ela começou a se afastar das amigas que tinha, não porque estavam viajando, casando ou se dedicando a tirar fotos de biquíni num pôr do sol tão distante da sua realidade. Mas porque ela se viu perdida em meio as conversas retóricas das amigas. Eram as mesmas piadas. As mesmas comparações. As mesmas fofocas. Os mesmos sonhos e horizontes. Ela se resguardava sempre que saía com elas, pois, sentia que dividir o seu mundo interno com suas amigas quase sempre era motivo de olhares esquisitos. Mas ela não tinha mais tempo para se achar esquisita ou se questionar sobre isso. Mariana percebeu que, com a idade, ter amigas que não têm a mesma sensibilidade de mundo que ela, não fazia mais sentido. Não que ela não devesse sair com amigas de opiniões e convicções diferentes, longe disso, mas dezenas de vezes ela tinha que guardar suas visões, seus sonhos, suas holisticidades, porque ninguém entenderia ou abraçaria de forma verdadeira… Quem iria entender uma menina que passa tardes em museus, usa meias coloridas e tem o sonho de viajar e sumir “só” para se encontrar?

Ela demorou anos para entender que a sua sensibilidade não era um desafeto que carregava sem um porquê. Ela aprendeu, sozinha, que a sensibilidade muitas vezes é solidão. Pessoas sensíveis têm tendência a ficarem sozinhas, e isso, não é um peso, muito menos um descaso com o mundo. Ela aprendeu a se respeitar, mas, principalmente, a respeitar e viver plenamente a sua sensibilidade. Seja ela na sua arte, nas suas dúvidas e questionamentos, nas conversas com pessoas estranhas na rua ou em suas viagens que suas amigas insistem em perguntar: “Mas, por que África? Tantos lugares no mundo…” Tudo como se elas pudessem quantificar um sonho, quantificar uma vontade incontrolável de ser feliz. Explicar um sonho para pessoas que não têm um, é sempre uma dificuldade sem fim.

Acontece que a sensibilidade é um tiro que às vezes te acerta. Ter uma sensibilidade aflorada, mas não saber lidar com ela, é uma dor constante, é conviver com o medo de sentir-se perdido em meio a pessoas que carregam tantas certezas loucas de tão absolutas. É notar-se diferente e ter que guardar isso para si. Dizer aos outros que somos diferentes, em sua maioria, soa como loucura ou egocentrismo. A verdade é que ter sensibilidade e ser para-raios das opiniões alheias é um fardo muito grande para se carregar. Ficar ao lado de pessoas que compreendam a sua sensibilidade talvez seja o maior presente que uma pessoa sensível possa ter. Alguém que te incentive a ser o que você sente que deva ser. Por mais louco, libertador e colorido que seja.

Mariana, sem saber, descobriu como a sensibilidade é um poder muito grande. A sensibilidade precisa de asas para não cair no esquecimento dos céus, ela nunca é culpa, muito menos frescura ou loucura, ela é só uma alma que, como se fosse fácil, quer abraçar outras almas que também vivam num mundo onde meias coloridas são legais e aceitas como são.

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