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Ser sozinho é a única forma de ser completo

Vejo a folha em branco. Já passa da meia noite, e o único barulho que me incomoda é o do ventilador. Nesse calor da porra, vento, sombra e água fresca são os melhores consolos. Deixam no chinelo qualquer abraço de mãe, qualquer ombro de amiga, qualquer pinto de homem. Porque vento, sombra e água fresca não são gente. Aliás, não tem gente aqui além de mim. Meu cabelo se agita sem ninguém pra me fazer cafuné. Meu corpo se resfria sem ninguém pra me dar aquela sopradinha na nuca. Meu coração se acalma sem ninguém pra me abraçar. Parece mágica, mas é só vento. Do ventilador. Ligado na tomada.

Por um momento, me descubro feliz por não precisar de tomada para viver. Me sinto feliz por poder vomitar um alfabeto inteiro nesse papel. Me sinto feliz por ser o único ser humano dentro dessa casa. A sobrevivente. A soberana. A absoluta. A mais bonita, a mais inteligente, a mais espontânea, a mais livre, a mais experiente. A leoa, a provedora, a dona da porra toda – mesmo que o aluguel vença amanhã, mesmo que a senha da Netflix seja compartilhada, mesmo que eu nem seja tão a favor desse lance de posse. Eu continuo sendo a dona da porra toda.

Da porra desse corpo todinho. Lindo, tatuado, sexy sem ser vulgar, funcional. Da porra dessa cabeça todinha. Genial, sagaz, simples sem ser simplória, útil. Da porra dessa autoestima todinha, que nunca me permitiu sofrer por um pé na bunda durante mais de três semanas. Do resto, eu não preciso ser dona. De casas, de carros, de eletroeletrônicos, de pessoas. Não que eu passe bem sem eles. Mas é que a gente pode viver num esquema de locação, de empréstimo, de arrendamento, de leasing. Num ninguém é de ninguém, porque ninguém é de ninguém mesmo.

Olho para a folha que, outrora, esteve em branco. Olho também para o relógio. Já passa das duas. Porque, sabe como é, entre uma linha e outra, eu ouvi uma música. Pesquisei sobre uma série. Li um textão de Facebook. Fiz selfies. E sabe que eu acho ótima essa minha capacidade de me distrair comigo mesma? Dizem os sábios que a gente nasce sozinho e morre sozinho. Se for assim, a gente é tudo uns puta cara de sorte. Porque sozinhos, vergonhas passadas não incomodam. Problemas insolúveis parecem pequenos. Erros soam apenas como desvios de percurso. Ninguém julga, ninguém compara, ninguém pressiona.

E aí a gente fica em paz pra nascer, pra crescer, pra fornicar, pra morrer, pra fazer dívidas ou investimentos, pra comer salada ou batata-frita, pra usar roupa ou pra ficar peladão. Pra ser quem a gente é. Os loucos que somos, os lindos que somos, os livres que somos. Os que bebem café gelado, que tomam cerveja quente, que mergulham a banana no feijão. Os que acordam a hora que bem querem, que comem a hora que bem querem, que dormem a hora que bem querem. Os que choram até desidratar, que cantam até perder a voz, que dançam até distender a virilha.

E até pode ser que a gente pode encontre bons companheiros de jornada, mas a gente é sozinho por uma razão especial: ser sozinho é a única forma de ser completo. Parafraseando The Cure, aquela banda meio gótica suave dos anos 80, “whenever I’m alone with me, I make me feel like I am home again”. Whole again. Young again. Fun again. Free again. Clean again.

E que assim seja. Pra sempre nós, num relacionamento seríssimo: eu, eu mesma e Bruna Molon Grotti.

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