Esta foto é sua?

Socorro – eu não sei o que eu estou fazendo da minha vida

Eu tenho 27 anos. Daqui a alguns meses – entre três e quatro, pra ser mais específica – completo 28. Já me formei na faculdade. Já fiz pós-graduação. Já fui admitida em grandes empresas que são o sonho de nove entre dez jovens. Já pedi demissão de grandes empresas que são o sonho de nove entre dez jovens. Já abri a minha própria empresa. Já escrevi livros – que foram publicados com o nome de outra pessoa, porque eu sou ghostwritter. Já escrevi um longa-metragem. Já fui premiada pelo meu longa-metragem. Já saí da casa dos meus pais. Já saí da cidade onde eu nasci. Já viajei sozinha. Já lavei muito banheiro. Já matei muita barata. Já aprendi a cozinhar um feijãozinho bem daora. Já assumi as contas de água, luz e internet. Já me dei conta de que roupas não se lavam sozinhas. Já fiz muita compra do mês em supermercado – inclusive de sexta à noite.

E muito embora eu pareça independente, bem-resolvida e conhecedora da receita para o sucesso, a verdade, meus bens, é apenas uma: eu não tenho a menor ideia do que eu estou fazendo com a minha vida. A menor. Hoje mesmo, comecei uma dieta detox pra dar aquela secada maneira no corpo – mas não tenho certeza de que esse é o melhor cardápio pra minha semana. Hoje mesmo, fiz a minha matrícula em mais um curso de roteiro cinematográfico – mas não tenho certeza de que essa á a melhor escolha para o meu currículo acadêmico. Hoje mesmo, pedi orçamento pra várias empresas de contabilidade – mas não tenho certeza se manter a minha empresa aberta e continuar prestando serviços de produção de conteúdo é o que eu realmente quero pra minha vida profissional. Em suma: certeza, na minha vida, é caviar. Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar.

Na nossa ingenuidade pueril, ser adulto parece a maior das maravilhas. Quando criança, eu me lembro de pensar: nossa, quando eu puder escolher a minha profissão, nunca mais vou ter que fazer coisas que eu detesto, tipo prova de física. Na adolescência, os desejos eram outros, mas a ambição continuava sendo chegar à vida adulta: YEAH, daqui a três anos minha vida vai ser outra, eu já vou poder beber, dirigir e entrar no motel, que incrível! Doce inocência. Os dezoito chegaram e, embora eu tenha transado bastante, bebido bastante e não dirigido porra nenhuma – porque acho que guiar um carro é um ato de responsabilidade que eu ainda não estou pronta para assumir –, pouca coisa mudou. Quero dizer, muita coisa mudou – a começar pelos papeizinhos com código de barras chamados boletos, que se multiplicam em progressão geométrica aqui na minha mesa. Mas a angústia continua aqui. A postura de projetar um futuro feliz diante de um presente nem tão feliz continua aqui. A vontade de que as coisas sejam diferentes – mas sem necessariamente saber como agir para mudá-las – continua aqui.

E o que é que a gente faz com tudo isso, senão sentar e chorar? Isso é o que adultos fazem, crianças. A gente senta – ou deita –, chora, se desespera, tem certeza de que o mundo vai acabar e, quando se dá conta de que planeta Terra continua aí, girando bailarino ao redor do Sol, percebe que precisa fazer alguma coisa. Por mais que não seja a mais certa, a mais apropriada, a mais planejada, a mais socialmente aceita, a gente vai lá e faz. Porque é na idade adulta que a gente descobre que a vida não é a porra do nosso Toddynho gelado e que o mundo não vai parar pra gente resolver os nossos problemas. Seu pai tá com uma doença terminal? Dane-se, o cliente continua esperando a entrega daquele trabalho. Terminou o namoro? Foda-se, a semana de provas continua começando amanhã. Tá na maior pindaíba? Problema seu, a NET continua cobrando a fatura de três meses atrás que você ainda não pagou.

E de tanto ter que tomar decisões assim, às pressas, com fardos nas costas enquanto o mundo gira feito um liquidificador, a gente se enfia em lugares que não nos pertencem. Em relacionamentos que não nos agregam. Em atividades que não têm nada a ver com as nossas vontades ou habilidades.

Acho que é por isso que, por mais que as contas não parem de chegar, a gente separa um dinheirinho pra, uma vez por semana, sentar na cadeira do analista. Mas eu só acho mesmo, porque certeza, meus bens, eu não tenho nenhuma. Absolutamente nenhuma.

Comentários