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Somos a geração que quer mais prazer e menos compromisso – ainda bem!

Se por um lado a internet faz maravilhas pelo nosso cotidiano, por outro, há momentos em que a minha vida definitivamente seria mais feliz se ela não existisse. Não, o problema não são as selfies – pratico bastante. Nem a vida feliz e filtrada de todo mundo no Instagram – tenho amigos que são, inclusive. É a coragem espartana de quem se esconde sob o escudo do anonimato pra falar um monte de atrocidades, sim. Mas é também – e esse é o assunto de hoje – o surgimento súbito de incontáveis especialistas no comportamento da nossa geração. Do dia pra noite, todo mundo virou uma espécie de Bauman, com especulações, teorias e críticas sobre o nosso modo de agir diante de nós mesmos e do outro.

Somos a geração que trata tudo como descartável. Somos a geração do raso. Somos a geração da água pelas canelas. Somos a geração veloz. Somos a geração do fulgás. Somos a geração da inconstância. Somos a geração insatisfeita, somos a geração mimada, somos uma geração de idiotas. Somos a geração do caralho a quatro, da puta que o parola, do deus que o tenha. Como se os baby-boomers fossem perfeitos, e os X, impassíveis de críticas.
Pois bem.

Outro dia, surgiu na minha timeline um vídeo de uma moça peruana declamando um poema de autoria própria sobre “ficar”. Boa a rítmica, bom o ponto de vista, boa a escolha das palavras. Interessante conhecer a percepção de um não brasileiro sobre a semântica pós-moderna que a gente atribuiu ao “ficar”. Pra ela, ficar tem a ver com mais ou menos. Viver um amor mais ou menos verdadeiro e assumir um mais ou menos compromisso.

Nada disso é mentira. Muito pelo contrário, é bem verdade. E abriu margem para pipocarem o quê? Mil e uma análises de como a gente é a geração mais ou menos. A geração morna. A geração que não se entrega, a que não se permite apaixonar, a que não liga no dia seguinte, a que não manda mensagem fofa, a que não quer conhecer a sogra uma semana depois do primeiro beijo, a que dá uma transadinha e vaza – em suma, a que quer sempre mais prazer e menos compromisso. E é aí que eu pergunto: qual o problema?

Nenhum, gente. Absolutamente nenhum. Todo ser humano que se preze quer mais prazer do que compromisso. A gente quer transar com 30 antes de escolher um pra namorar. A gente adoraria passear no parque das 9h às 18h em vez de trabalhar. A gente sempre sonhou com o dia em que a tarefa de assistir a um filme para a aula não implicasse em fazer uma prova sobre a obra. A gente tende a escolher a batata-frita em vez da salada de alface pra acompanhar a bebedeira no boteco da esquina. A gente preferiria gastar todo o nosso dinheiro com cerveja e brusinha a ter que pagar o aluguel e as contas de água e luz. São todas dicotomias que envolvem prazer e compromisso, gozo e obrigação, deleite e encargo. E o prazer, também conhecido como gozo ou deleite, sempre ganha, amigos. Sempre.

Afinal, sentir prazer é muito bom. É por isso que as pessoas fumam – porque cigarro dá prazer. É por isso que as pessoas inventam uma dor de cabeça para faltar ao serviço – porque dormir dá prazer. É por isso que as pessoas saem rolando quando tem comida de graça – porque comer dá prazer. É por isso que as pessoas postergam a faxina no banheiro quando começam a assistir a uma boa série na Netflix – porque entretenimento dá prazer. É por isso que os crushes só querem sexo com você – porque transar dá prazer.

E – convenhamos – é pra sentir prazer que a gente tá nesse mundo. Se fosse pra sentir desgosto, arroz e feijão seria comida cara, gargalhar seria atividade tributada e mulher teria nascido sem clitóris.

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