Te olhando daqui... Esta foto é sua?

Te olhando daqui…

Te olhando daqui, pentear o cabelo como quem molda uma escultura de barro e passeando pela casa procurando aquele par de sapatilhas que você sempre procura e nunca sabe onde está. Por que não guarda num lugar específico? Mas você gosta. Diz que a busca é sempre divertida e, no fim, tudo que é divertido pra você, me faz sorrir, também. Mas te olhando, aqui, agora, e pensando em quando isso deixar de ser divertido. Porque, você sabe, um dia, a gente muda, enlouquece e resolve ir embora.

Será que você vai embora primeiro?

Assim como, naquele dia de julho, chuvoso, sombrio e eu decidir ir na cafeteria pra me esquentar um pouco e te encontrei por lá. Pensei em te convidar pra se esquentar um pouco porque estava um frio da porra e, com certeza, você queria mais do que um café quente por ali. Tudo bem que eu não tinha lá essa certeza toda porque você, com aquele teu jeito de olhar-sem-ver, nem me mirou muito. Nem se virou muito. Nem sorriu pra mim. Nem me trocou olhares daqueles dos filmes, sabe?

E eu fiquei ali fantasiando um futuro que poderia talvez não acontecer. Na verdade, não aconteceu – não do jeito que eu fantasiei. Melhor, você diz. Pizzas às terças-feiras. Dormir juntos até você cansar de mim e quase me expulsar da cama. Você acordando de madrugada e, me acordando, também, porque queria ir beber água e tem medo de ir na cozinha sozinha. Cadê-minha-chave?, frase que você mais diz pra mim desde sempre. Eu não sabia teu nome, mas já sabia que você perdia as chaves. Chaves, celulares, sapatilhas, escova de cabelo, carteira e guarda-chuva.

A busca é divertida, você repete.

Aí, te olhando bater as pernas como quem está nervosa ou coisa assim, percebo em pequenos detalhes e lembranças o quanto sou feliz ao teu lado. Às vezes, não tão feliz do sentido de gargalhar. Às vezes te odeio, mas sigo feliz porque sei que voltaremos aos risos em seguida. Até você parar de bater as pernas, olhar para os lados ou coçar as unhas.

E percebo – entre o hoje e o dia da cafeteria – aquela velha mania que minha avó dizia sobre paixões do dia-a-dia: quando o coração bate mais rápido é porque ele exige pressa.

Corra, rapaz, a mulher ao teu lado também quer alguém para esquentá-la.

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