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Todo bom amor é fruto de bons desencontros

Já perdi a conta de quantas vezes a gente se desencontrou pra chegar até aqui.

Primeira vez, meu bem, nem bem eu sei. Era bar com os amigos. Risada fácil. Petiscos fartos. Vozes ébrias ressonando pela madrugada. Bocas pouco raivosas mastigando sanduíche, azeitona, batata frita e o que mais viesse pela frente. Palavra enrolada em palavra. Uma cerveja aqui, uma cachaça ali, um beberico num vinho acolá. Era tanta distração – e era uma distração tão boa – que eu sequer sabia que você me fazia falta. Porque amanhecia e ainda me sobrava tudo. Apesar da sua ausência.

Segunda vez, meu bem, deve ter sido em festa de família. Aquela obrigação de ser sociável sem ser socialmente inadequado. De rir o bastante para mostrar os dentes, mas não o suficiente para perder o ar. De beber o bastante para brindar, mas não o suficiente para perder a compostura. De comer o bastante para não fazer desfeita, mas não o suficiente para acabar com a travessa. Todo aquele comedimento que a gente, que hoje ama, não sabe muito bem o que é. Mas que, durante todo o tempo em que a gente não amou, nos caiu como uma luva.

Terceira vez, meu bem, foi no cinema, bem ao lado daquele casal que sorria e dividia um balde de pipoca. Não que a felicidade alheia me incomode – muito menos que eu goste de pipoca. Mas é que, dependendo do quanto o filme nos descerra, a gente presta mais atenção às poltronas vizinhas. E tudo que é minimamente agradável quando se está sozinho no escuro parece se tornar deslumbrante quando bem partilhado.

E muito embora eu soubesse – acho que todo mundo sabe – que amar exige saber ceder, eu quis. Te amar, saber amar, ceder e saber ceder. E notei que a gente se desencontrou pela quarta vez. Pela quinta, pela sexta. Pelo sábado. Por vários sábados consecutivos em que eu não cedi. Acordei a hora que quis, cozinhei o almoço que quis, assisti ao filme que quis, fui ao bar que quis. Saí com quem quis, bebi quantas quis, voltei a hora que quis. E se quis.

E mesmo que essa liberdade seja maravilhosa com eme maiúsculo, um dia a gente encarna o Alexandre Pires e não sabe mais o que fazer com ela. Começa a dar falta da presença de alguém que muito provavelmente a gente nem sabe que existe. Pensa no quão razoável seria ter alguém para discutir o prato do almoço de hoje. O ponto do macarrão do jantar. A quantidade de sal que vai no tomate. O próximo seriado a ser assistido. O bar para a cerveja de fim de tarde. A velocidade do ventilador numa noite de verão. A quantidade de cobertor numa noite de inverno.

Tanta divagação assim é sinal de que a gente sacou que ceder não é a pior coisa do mundo. E é aí que a gente dá ao desencontro a chance de perder o prefixo. E virar um encontro. E um papo pra uma cerveja. E uma companhia pra uma dança. E um corpo pra rachar uma cama de motel. E um parceiro pra noite com os amigos, pra festa de família, pro cinema. Uma história. Enfim, quem sabe, um amor. Que não precisa ser “imortal – posto que é chama”. Mas que precisa ser o suficiente para nos fazer perceber que não há maior liberdade do que estar entrelaçado com alguém por opção.

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