Um conto de Natal - quando a solidão nos ensina a amar quem nem conhecemos Esta foto é sua?

Um conto de Natal – quando a solidão nos ensina a amar quem nem conhecemos

Deixa eu te contar uma história. Era dezembro, e numa manhã um garoto entrou na minha mercearia para furtar. Tinha entre 15 a 16 anos, e acho que nunca vi um ladrão mais desastrado que ele. O menino ficava parado diante das prateleiras e enchia os bolsos de sua calça com mercadorias.

Meu mercadinho estava cheio de gente naquele horário, então não percebi ele de início. Mas assim que notei, comecei a gritar. O menino saiu correndo e, no tempo que levei para pular de traz do caixa, ele já estava na rua. Persegui o moleque um quarteirão e meio, e então desisti. Ele tinha deixado cair uma coisa na calçada, e fui dar uma olhada.

Era a carteira dele, imagina só que lesado! Não tinha dinheiro nenhum dentro, mas encontrei um recibo de uma locadora de DVD ali do bairro, em nome de um tal Rubair da Silva. Logo, o cara devia morar ali perto. O dono da locadora era meu conhecido e, bom, você sabe que nós comerciantes somos unidos, por isso consegui a ficha de cadastro do ladrão com e seu endereço.

Eu podia ter chamado a polícia, mas no fundo fiquei com pena dele. Era só um menino idiota, desses delinquentes que não sabem nem furtar direito. Além disso, o garoto havia só furtado um pacote de trakinas e algumas latas de guaraná.

Então guardei a carteira, sei lá porque. Aí a véspera de Natal chegou e eu não tinha nada para fazer. Você sabe, moro sozinho, sem parente ou namorada. E é uma época solitária. Eu estava no meu apê sentindo pena de mim mesmo, e então vi a carteira do Rubair na minha estante. Não sei porque, mas achei que faria um tipo de boa ação de Natal se devolvesse a carteira daquele ladrãozinho, né?

Era um dia quente mas nublado. Céu cinzento, mas nenhuma gota de chuva. O endereço era há algumas quadras da minha casa, em um condomínio da COHAB, com paredes pichadas e sujas. Levei algum tempo procurando o prédio certo, porque todos os blocos de apartamentos pareciam iguais. Cheguei quase a tropeçar em ums fumadores de crack, mas eles estavam chapados demais para me notar.

Finalmente encontrei o prédio e o apartamento. Toquei a campainha. Nada aconteceu. Presumi que não tinha ninguém lá, e já estava indo embora quando ouvi alguém se aproximar da porta. A voz de uma mulher velha perguntou quem era, e eu respondi que queria falar com o Rubair.

– É você, Rubairzinho? – perguntou a velha, e então ela abriu a porta destrancando três trancas e a fechadura.

Ela devia ter no mínimo 80, talvez 90 anos, e a primeira coisa que notei é que ela era cega.

– Eu sabia que você viria Rubairzinho! – ela disse. – Eu sabia que você não ia esquecer da sua vozinha no Natal.

E então ela abriu seus braços para me abraçar bem forte.

Eu não disse que era seu neto, mas meu silêncio era um consentimento. Eu não queria enganar ela, mas aquela velhinha parecia tão feliz! Eu acho até hoje que ela no fundo sabia que eu não era o Rubairzinho, mas não tenho certeza.

Então eu entrei no apartamento e passei o dia inteiro com ela. O lugar estava uma bagunça, posso dizer, mas o que você espera de uma senhora cega que não tem faxineira?

Estava na cara que ela não ouvia direito também, e quando falei algo novamente, ela sorriu e comentou que seu netinho estava mudando de voz, ficando homem. Sempre que ela me perguntava como eu estava, eu mentia. Eu respondia que estava tirando ótimas notas na escola, que tinha conseguido um emprego de meio turno em uma mecânica, que estava indo sim na missa aos domingos, e um monte de outras histórias bonitas sobre mim. Quero dizer, sobre o Rubairzinho.

– Que bom meu fofo! – ela sempre dizia. – Eu sabia que um dia você ia se endireitar!

Depois de um tempo ali, comecei a ficar com fome. Não tinha comida nenhuma na casa, então fui num supermercado do bairro e comprei uma galinha assada, um pouco de arroz pronto, um espumante barato e um sorvete de flocos. Era o suficiente para uma ceia de natal bem digna.

Fingi tomar refrigerante, mas me servi de espumante. Nós dois ficamos meio bêbados, e depois da ceia sentamos na sala. E ali fiquei um tempão escutando ela contar histórias de sua infância e de sua adolescência, de como ela tinha conhecido o avô do Rubairzinho e de como ela havia ficado grávida da mãe do Rubairzinho.

A refeição pesada na barriga, o espumante e todas aquelas histórias do passado me deram um sono enorme. Acho que cochilei e, quando abri os olhos, a vovozinha estava também dormindo na sua poltrona. Ela roncava muito. Fui para a cozinha, lavei os pratos e limpei a mesa de jantar. Arrumei a casa dela, sem fazer barulho. Não havia motivo para acordá-la, e eu nem mesmo podia escrever um bilhete de despedida porque ela era cega.

Então simplesmente fui embora, deixando a porta do apartamento encostada. Deixei a carteira do Rubairzinho na mesinha da sala, ao lado de um presente que eu havia comprado na loja de R$ 1,99 que tinha ao lado do supermercado, embrulhado de qualquer jeito pela vendedora apressada: uma pequena caixa de música.

(Essa história é uma adaptação livre do conto “Auggie Wren’s Christmas Story” de Paul Auster)

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