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Um manifesto por menos joguinhos nas relações

“Acho que um certo jogo não faria mal.”

É o que diz a maioria das pessoas, em se tratando de conquistas ou de relacionamentos, em sentido mais geral possível.

Não ligar no dia seguinte – mesmo que isso custe horas sofridas de espera ao lado do telefone – é uma espécie de sacrifício torpe recompensado por uma pseudoautossuficiencia (provável que essa palavra nem exista) que, honestamente, nunca me enganou. Troca-se a liberdade de fazer o que realmente se tem vontade – ligar, elogiar, declarar-se – em nome de um orgulho besta que alguns desavisados têm chamado de amor próprio.

Desfrutando do meu irrenunciável direito de discordar, devo reconhecer que, sim, o tal joguinho da conquista faz verdadeiros milagres, por uma lógica tão simples quanto notável: tudo que as pessoas querem é provar para si mesmas que são capazes. O jogo duro da outra parte funciona como um desafio a ser superado – e vencido, muitas vezes, a todo custo. Cria-se uma ilusão cruel de querer: Você pensa que de fato quer algo – ou alguém – quando tudo o que quer, na verdade, é provar pra si mesmo e para o mundo que pode conseguir. Por que a vida é feita, basicamente, do “provar que pode”.

A conseqüência mais lamentável disso tudo é a perda talvez irrecuperável da transparência nas relações. E olha que não me refiro apenas aos inícios, onde o coração acelerado à espera de um telefonema é personagem principal: refiro-me também às relações de longa data – inclusive as de amizade – onde a sinceridade é tão necessária quanto escassa.

Do P.A ao amigo de infância, são poucos os que se arriscam à verdadeira e perigosa transparência. O jogo da sedução espalhou-se como um vírus e infectou as relações mais bonitas, mais abertas e mais sinceras, tornando-se um óbice travestido de escudo: que, embora nos proteja do sofrimento, dos priva do melhor de toda relação.

Eu, sinceramente, prefiro o amor real. Eu prefiro a entrega, ainda que, para isso, eu tenha que ser feita de boba de vez em quando. Prefiro me jogar de cabeça, mesmo que eu saia ferida algumas vezes – e mesmo que numa dessas vezes, seja fatal. Ligo quando quero ligar, abraço quando quero abraçar, declaro-me quando quero me declarar – e confesso que isso já me rendeu umas boas decepções, e, sobretudo, afastou-me daqueles que nunca mereceram um amor honesto. Paciência. Não jogo porque não sei jogar, mas, sobretudo, porque o que importa nessa vida é ser livre para amar e para entregar-se: a quem assim merecer. 

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