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Um medo filho-da-puta

Eu sinto medo da solidão, mas de tanto temer me acostumei com a presença dela e agora ela faz parte de mim. Tenho medo dos meus pensamentos, do barulho dos trovões e da noite. Tenho medo da minha imaginação e das minhas palavras que simplesmente acontecem sem medo.

Tenho um medo doído de nunca conseguir me sentir bonita. Mais medo ainda de admitir que toda a minha falta de vaidade é só um refúgio pra minha baixa-estima. Tenho medo da minha eterna insatisfação – e aí eu percebo que usei a palavra eterna, e a eternidade me dá medo pra cacete.

Eu sinto medo de dormir, porque eu sei que vou ter que acordar e acordar me dá um medo violento. Também tenho medo de ser fria demais, por isso exagero e acabo tendo muito mais medo de ser de verdade, porque eu tenho medo das minhas verdades.

Sinto medo de crescer e mais medo ainda de ser pra sempre criança. Tenho medo de pensar que já sou adulta e que a juventude é passageira. Morro de medo da velhice e de me sentir impotente. A impotência me dá ânsia de vômito, e eu quase vomito de tanto medo que eu tenho de vomitar.

Eu me contorço de medo de saber que existe alguém que vá me fazer feliz, e aí eu choro de medo da alegria que eu vou sentir, porque eu sempre me aproximo mais de mim na tristeza. Eu tenho pavor da finitude da paixão, aí eu sempre encurto o caminho e acabo sofrendo de medo de não me apaixonar de verdade nunca mais. Eu sempre tenho mais medo que se apaixonem por mim do que de me apaixonar por alguém, porque eu sei o que é sofrer por quem não merece.

Tenho medo da minha insegurança, que me deixa tão sem chão que eu preciso me reafirmar o tempo todo. Aí eu fico tão de saco cheio que eu tento acreditar um pouco em mim sem essa mania de auto-afirmação e morro de medo de ser só mais uma pra todos. Eu morro de medo de não atender expectativas, aí eu fico nervosa e não atendo mesmo e fico me sentindo a pior das criaturas. Eu tenho medo de ser a pior das criaturas.

Eu tenho medo que descubram que eu falo sozinha, que percebam que a minha loucura é permanente. Eu sinto medo dos meus personagens, que de tão reais criam vida própria e me fazem perder o controle. Eu tenho medo da minha falta de controle e muito, mas muito, mais medo de quando eu posso controlar qualquer coisa.

Eu sinto medo dos meus sonhos, porque eles sempre me trazem surpresas e eu sempre acabo acreditando que um dia elas vão acontecer. Eu tremo e gaguejo de medo de parecer ridícula e a minha preocupação se torna tão ridícula que eu tenho medo que descubram o que acontece aqui dentro.

Eu tenho tanto medo da saudade que eu sinto do que não aconteceu, que viver cada dia se tornou uma constante busca por um passado que eu não vivi. E o meu maior medo (um medo filho-de-uma-puta que não me abandona um segundinho sequer) é não viver de verdade.

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