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Um relacionamento é feito de: concessões

Dentro de algumas semanas eu vou me casar, praticamente. Como se diz na minha terra, amigado com fé, casado é. Então eu vou casar. Já morei junto com uma namorada, mas foi uma situação emergencial, com pressa, sem pensar direito. Dessa vez não, dessa vez passamos meses pensando, decidindo, se seria melhor ou não, se seria agora ou não, e decidimos que vai ser agora. Eu já moro sozinho mas ela não vai morar na minha casa, vamos morar em um lugar novo, novo pros dois. Pros cinco, na verdade: eu, ela, o Ringo, a Olívia e a Charlotte. Meus gatos, não tem a ver com poliamor. Até porque eu jamais aceitaria o Ringo em uma relação aberta.

Em umas semanas, eu dizia. Trâmites de obra e entrega de móveis estão sendo feitas e concessões já estão sendo negociadas. Porque casar é isso, fazer concessões. E isso não é negativo, pelo contrário. Mas há de se pensar nas concessões. Enquanto ela – que não consegue ler nem com passarinho cantando, só no mais absoluto silêncio – vai morar com um cara que liga a TV antes de chegar em casa e escreve vendo TV, ouvindo música, lendo e jogando, eu, que só como porcaria, vou morar com uma mulher regrada, que não come doce durante a semana e faz refeições balanceadas cinco dias por semana.

Eu vou ver os jogos do Fluminense mesmo se estiver passando novela, mas em compensação deixei ela pintar de branco a minha estante de Jacarandá da década de 40. Concessões. Teremos uma parece vermelha na sala, cores harmonizando e móveis coloridos, mas também teremos prateleiras pela casa inteira para os gatos e adesivos na parede do escritório. A cama não vai ser encostada na parede como eu prefiro, mas em compensação eu vou escolher como arrumar os meus mais de mil e trezentos livros. Concessões.

Mas nada disso é doloroso, nada é penoso. São coisas que você faz pela pessoa que você ama e que você sabe que vai deixá-la feliz, então facilita o desapego. Ela, por exemplo, vai morar com um cara que tem três gatos. Já eu vou morar com uma mulher que acorda às sete da manhã pra malhar todo dia e só vê TV com as luzes apagadas – o que eu abomino, como todo bom míope que adora luz. Concessões, eu disse.

Mas o mais curioso é que nada – NADA – disso foi negociado. Simplesmente as conversas vão acontecendo e as coisas vão se alinhando. Um móvel pintado aqui, um alvará passe livre para jogos do Fluminense ali e tudo se ajeita. Porque no fundo, tudo isso só serve pra que a convivência seja a melhor possível e livre desses empecilhos diários. E nada melhor para isso do que encontrar alguém tão disposta a fazer concessões quanto você, o que é algo raríssimo e eu nunca achei que pudesse encontrar.

Com o mesmo desapego que eu deixarei ela pintar a minha estante, ela me deixou espalhar prateleiras e adesivos pela casa. Com o mesmo desapego que eu abri mão de uma cama encostada na parede, ela aceitou morar com três gatos. E assim se vai, não pensando no melhor pra você, mas no melhor para ambos. No caso, o melhor para a casa. E quando um deixa a toalha molhada em cima da cama, o outro tira. E quando o outro esquece de lavar a louça, o um lava. Sem divisão milimétrica de tarefas, só com bom senso a boa vontade. E isso nós temos de sobra. Ah, e com muito amor também, o que tampouco nos falta. Dou mais notícias do front pra contar como foi a experiência mais tarde. Até já.

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