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Uma felicidade tamanha (ou ser feliz não é para momentos nobres)

Os dias estão densos. O calor se tornou abafamento, o cansaço acumulado dos 11 meses e meio arrasta os 45 dias que vem pela frente, notícias ruins parecem oxigênio: mesmo invisíveis, você tem certeza que estão ali e que, em algum lugar do mundo, uma grande desgraça está prestes a acontecer.

Nossos olhos estão treinados para ver pequenas tristezas e decepções por todos os lados. Tem papel no chão do lado da lixeira. O parente já começou a campanha para uma das 28 opções escrotas que estão lutando pelo posto. O contrato acabou. É quinto dia útil e acabou o café. O Oscar foi em fevereiro e ainda não vi os vencedores. Nenhuma hecatombe ou problema imenso precisa acontecer para que, no fundo do nosso peito, se arme um buraco negro.

Mas se for pra ser feliz, tem que ser imenso. Uma decoração de Natal digna do Esqueceram de Mim com fogos de artifício em cada esquina. Milhões na conta. Promoção a cada seis meses. Presentes emocionantes, inesquecíveis, caros. Demonstrações de afeto inéditas e escandalosas. Uma formatura depois de cinco anos de epopeia. Uma paixão avassaladora. A felicidade parece estar apenas no pote de ouro no fim do arco-íris, nos seis números da Mega-Sena ou em qualquer acontecimento que mude o rumo das coisas irrefutavelmente.

Como pode a tristeza acontecer por detalhes e a felicidade precisar de tanto?

A ordem está invertida. O sentimento de felicidade deveria inundar a nossa vida com pequenos acontecimentos. Um casal andando de mãos dadas. O bocejo do gato segundos antes de virar a barriga pra cima. Uma frase que desperta uma lembrança boa. A saudade que tem data pra terminar. Uma nova playlist – mesmo que holandesa. Colocar o pé pra fora da cama sabendo que tem pra onde ir. Sentir liberdade para escolher a roupa que quiser, sem patrulha ou julgamento. Dez minutos de soneca. As sinaleiras todas verdes.

Precisamos tirar a nobreza da felicidade. Parar de economizá-la para a grandeza e deixar que aconteça na simplicidade. Não deixar que seja como o jogo de pratos de festa ou a roupa de domingo. Ao contrário da xícara que pode trincar ou a roupa que mancha, a felicidade não se acaba. Não tem teto, nem piso. Não é como o limite do cartão de crédito. Não paga juros.

Chega de sermos tristes por tudo. Está mais do que na hora de sermos felizes por pouco. Ou por nada.

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