Uma homenagem aos escritores Esta foto é sua?

Uma homenagem aos escritores

O que difere o escritor do resto dos profissionais? Ao contrário do que muitos pensam, não é apenas a necessidade incontrolável de escrever ou a vontade crescente de transformar folhas rabiscadas em retratos magníficos do cotidiano. Não é só isso!

O escritor não é somente o ser que, sem saber como continuar com os olhos na estrada e sem conseguir manter a cabeça no mundo real, precisa, com urgência, parar o carro no acostamento para iniciar um novo texto. Para ser escritor de verdade, não basta sair do banho sem tirar o xampu da cabeça, só para em algum lugar, em qualquer lugar – até no papel higiênico – , escrever alguma frase que, na imensa maioria das vezes, não vira nem citação de Facebook. Para ser um escritor genuíno você precisa de mais. E, não se engane, pois aceitar o risco de morrer pobre e muito feliz não é suficiente para se tornar um.

O escritor é o cara que, comumente, bate com a face em muros e com o dedão em pedregulhos maiores do que meteoros. E, tais colisões não acontecem por distração, pelo contrário, acontecem, pois os escritores são viciados em observar, atentamente, a forma específica que o desconhecido de cicatriz na cabeça segura a cintura da desconhecida de pescoço longo e nariz de batata.

Ser escritor é, diariamente, quase ser atropelado por ônibus visíveis até do espaço e, quando tragédias desse tipo envolvem tais profissionais, saiba que não ocorrem por desconhecimento das leis de trânsito, por embriaguez total ou por possível daltonismo capaz de inverter as regras do farol, nada disso, em 99% dos casos nos quais escritores são atropelados, caem em bueiros destampados ou esbarram na mulher do bandido de revolver carregado, eles morrem observando o dente ligeiramente torto para esquerda da pedestre que desfila usando minúsculas sapatilhas vermelhas. Morrem observando atentamente a garota que, enquanto fala sem respirar, quase de forma imperceptível, pisca mais vezes do que um ser humano comum. Isso mesmo, os escritores, enquanto caminham sobre a corda bamba, não reparam nos gatos pretos do caminho e não ouvem o som dos tiroteios, estão atentos às sutilezas que, muito dificilmente, seriam vistas por médicos, advogados, mecânicos e pelas putas.

Os escritores enxergam as entrelinhas das entrelinhas do dia a dia e pescam, com maestria, as miúdas ações capazes de desencadear os mais grandiosos sentimentos. Eles são capazes de ouvir falas que nem sequer foram ditas e de escrever diálogos que fazem com que os leitores sintam-se grampeados e internamente filmados.

Na minha humilde opinião, a mais importante característica do escritor não genérico é a capacidade de reconhecer e de colocar “peculiaridades universais” no papel. Parece contraditório, mas é possível captar, mesmo que em meio ao mais conturbado tumulto, minúcias que muitas pessoas consideram características únicas de suas personalidades, mas que, na verdade, estão presentes no caráter de muitas outras pessoas do planeta. E, quando o leitor se depara com uma dessas “peculiaridades universais” dentro de um texto, ele logo diz: “Caramba, parece que o autor andou me filmando, pois faço exatamente isso!”.

Ser escritor é, todo dia, com a graça das palavras, homenagear a beleza dos simples e dos pequenos atos. Sem esquecer que o simples está muito longe de ser sinônimo do óbvio. O escritor de verdade é aquele que, quando perde um rascunho, sente vontade de morrer, pois sabe a dor e a delícia de parir cada nova frase. Isso mesmo, o escritor, antes mesmo de pensar em filhos, já sonha com livros.

Quero propor um grande brinde a todos os escritores de verdade, dos que escrevem em guardanapos até aqueles que escrevem Best-Sellers. Dos que deságuam tinta no papel até os que já nascem em forma de pixel. Não importa. Um brinde em homenagem a todos vocês, caros escritores por natureza.

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