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“UP, altas aventuras” e a arte do frio na barriga

A Pixar é cheia de presentes caprichados, animações decompostas de sentido, que atingem um nível de qualidade anti-bocejo para adultos. Foi por isso que hoje resolvi falar pela primeira vez de uma animação por aqui. “Up, altas aventuras” é daqueles filmes que serão lembrados para o resto da nossa existência. Em seu legado, cravou duas estatuetas do Oscar: melhor animação e  trilha sonora – quem não se lembra da musiquinha instrumental feita por Michael Giacchino? À parte desses dois prêmios, a obra ainda concorreu ao prêmio máximo de melhor filme, merecidamente, diga-se.

O filme poderia terminar em seu prólogo e ainda assim ser coroado como uma daquelas animações arrebatadoras do estúdio. É como se uma vida inteira fosse explicada em alguns minutos e a velhice apontasse para uma lacuna de encerramento, quando na verdade o que essa sequencia quer dizer é: a vida está apenas começando. O amor entre Carl e Ellie é um recorte paralelo e essa já é uma das grandes sacadas do longa: inserir um mini filme dentro do próprio filme, como se a camada menor fosse apenas o ponto de partida para a maior.

Carl é um senhor ranzinza de 78 anos que ganha a vida vendendo balões. Num triste dia, ele perde a sua companheira de vida e decide então fazer jus ao sonho que os dois tinham de viver em algum pico elevado da América do Sul. Reveste o teto de sua casa com um conjunto de balões que permitem fazer o seu lar sair voando. Durante o voo, ele se depara com Russell, um gordinho escoteiro que acaba embarcando sem querer na aventura. A partir desse ponto, o filme passa a abordar a convivência geracional. Nunca me esqueço de uma professora de escrita que um dia me disse: “conviva com pessoas de idades bem diferentes de você, tanto crianças quanto idosas”. Carl e Russel precisam suportar suas diferenças e ao mesmo tempo sobreviver em ambientes selvagens, uma metáfora sobre as agruras mundanas, sobre sair de casa e enfrentar a selva. No caminho, eles encontram cães capazes de se comunicar com humanos e descobrem que existe um obstáculo perigoso a ser enfrentado: um cientista vilão e maluco.

É uma aventura grandiosa, cheia de referências implícitas (Julio Verne, por exemplo), abordando a potência mágica que se sobrepõe a ideia de finitude da vida. Já dizia Clarice Lispector: “o que importa é a idade da alma”. Carl experimenta diariamente a exaustão da idade junto de um menino que está apenas começando a entender a vida. Seu modo quadrado de enxergar a realidade acaba ganhando novos moldes, imerge na transformação pela conexão e também nas últimas fichas existenciais que compreendem a ideia de “morada” ou o significado de “casa”. As lições deixadas são muitas, mas o grande mérito do filme é lidar com fronteira dos sonhos, celebrando a continuidade da vida de forma edificante e lúdica. Ir de um ponto ao outro, elevando a viagem física ao rito da viagem existencial. Em meio a alguns balões estourados, sonhar ainda é possível, sair do chão, não sem pisar firme no objetivo, não sem frio na barriga.

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