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Vai sem medo, menina

Nem precisa me contar que eu já sei, aí dentro já doeu demais, dessas dores que esmagam cada espacinho do nosso corpo e parecem que não vão passar nunca. Você já sangrou um desses sangues invisíveis que saem da alma e escorrem pelos machucados que essas histórias incompletas nos deixam, já sofreu de ver o coração esmagado por promessas que nunca foram cumpridas e já chorou por longas madrugadas até achar que secaria inteira. Nem precisa me contar que você já colecionou babacas e que se entregou mais de uma vez pro cara errado, eu sei de cor e salteado todas as vezes que você resolveu tentar mais uma vez e quebrou a cara, o corpo e o peito. Eu sei, menina, que a gente cansa de atirar pro lado errado e acaba desistindo de procurar pela mira certa. Eu sei que arde os hematomas que a vida vai brotando em nós com cada final infeliz que o destino enfia no meio da gente. Mas eu também sei que você não nasceu pra abaixar a cabeça e engolir essa ideia de que você nasceu pra morrer sozinha.

Ninguém nasce predestinado a solidão, você sabe disso, e eu te admiro por levantar a cada tombo sem deixar a peteca cair, te admiro porque você é forte o suficiente pra saber que nenhuma fraqueza pode ser maior que a gente, te admiro porque você continua andando mesmo sabendo que vão ter pedras, buracos, armadilhas e que seu coração ainda vai ser quebrado muitas e muitas vezes. Ainda vai doer, sangrar, apertar e você ainda vai borrar o rímel com muito cara idiota. Mas você não vai desistir, porque você é do tipo que se quebra inteira, mas não deixa de acreditar. Cê pode até achar que o mundo vai acabar no dia seguinte, pode ligar bêbada no meio da madrugada e largar teu orgulho em uma dessas esquinas, mas vai continuar se reerguendo quando perceber que a sua cota estourou, vai partir pra outra sem se importar se a bagagem vai ficar mais pesada, porque quando não der mais pra andar cê sabe que pode jogar fora. E é o que você faz, e é o que te faz ser assim, que eu mais admiro.

É essa certeza de que a vida continua mesmo quando tudo conspira contra, é essa maturidade pra entender que as vezes a gente precisa apanhar um pouco, mas que isso não significa que vamos apanhar pra sempre.
É essa sua coragem de meter a cara em mais um romance depois de tantos fracassados que já te fizeram encharcar o travesseiro. Então vai sem medo, menina, se joga desse penhasco emocional sem se preocupar se a queda vai doer, no final eu sei e você também sabe que não é isso que importa. Então se atira nessa linha de risco, briga contra o mundo, mas não desiste de você, não abre mão do que você acredita, não joga fora o seu final feliz. Vai sem medo que o amor é pra quem não se amedronta na primeira madrugada escura, pra quem não foge no primeiro susto e não se esconde com medo dos monstros embaixo da cama. O amor é pra quem fecha os olhos e pula do precipício sem parar pra pensar por quanto tempo ainda vai haver uma outra mão pra se segurar. Vai, mas vai sem medo, vai com a cara e a coragem que a vida te ensinou a ter. Vai, que uma hora ele vem também. A gente sabe.

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