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“Vicky Cristina Barcelona” um filme sobre a desobediência do coração

Pela primeira vez falarei de Woody Allen por aqui. Que momento! Alguns acham que a sua obra é composta por “filmes de frango”, explico: o diretor costuma abordar as neuroses da classe média norte-americana sem variar muito de ambientação. Além dessa marca, Allen imprime em suas histórias outros toques autorais e fundos musicais com jazz. É ateu e contra a morte, então o acaso acaba trazendo um tom de humor às suas resoluções narrativas. Seus personagens estão sempre entregues a sorte, não há a quem recorrer, pode chover a qualquer momento, então aproveite enquanto o Sol é generoso. Em seus filmes, Deus é o próprio Woody Allen, sua vaidade intelectual e o seu pessimismo hiperativo. A metafísica parece rir da nossa cara, enquanto acompanhamos situações que podem de repente ser resolvidas por uma solução absurda.

A busca, o encontro, a troca, a perda. Quem entende nossos espaços, nossa fome, a troca brusca das nossas vontades? Em “Vicky Cristina Barcelona” não há uma tentativa de entendimento racional dessas questões, mas sim uma abordagem bem humorada e às vezes ácida dos nossos cartuchos emocionais instáveis. Nesse filme a monogamia entra numa teia mais abrangente: a “monogamia” entre amigos é também retratada. Quem tem prioridade sobre um alvo em comum? A amiga que viu primeiro? A amiga que se envolveu primeiro? O simples fato de se interessar pelo parceiro da amiga já é uma culpa no cartório? O livre tráfego de sentimentos é capaz de regular o surgimento do desejo clandestino? Amigos, amigos paixões a parte?

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Vicky e Cristina

Duas amigas passam férias em Barcelona, Vicky (Rebecca Hall) é mais pragmática, óbvia e estável enquanto Cristina (Scarlett Johansson) é um mar desordenado, em que as ondas se direcionam, exala a leviandade artística e a eterna insatisfação. Em meio aos vários passeios pela cidade catalã, elas acabam conhecendo Juan Antonio (Javier Bardem) um pintor recém-divorciado. Esse encontro é a tônica do filme. A partir dele, diversos conflitos e desencontros passam a acontecer. Allen traça situações em que o existencialismo e a superficialidade se confrontam dentro da temática do amor. O amor para alguns pode legitimar a existência, para outros pode apenas ser uma almofada de coração em liquidação.

Assista o trailer:

A melhor parte dos filmes postais do diretor é que as cidades parecem exercer algum tipo de influência no temperamento das personagens. A fúria ardida e colorida dos tipos, mesclados à paisagem de Barcelona parece corromper os bons modos e as camadas mais contraditórias de cada um. Camadas que vão sendo aos poucos reveladas. A cada toque um choque. Ainda no novelo turístico, há uma crítica em relação ao imperialismo norte-americano nos diálogos em que Juan pede a ex-esposa que fale em inglês, como se o idioma de certa forma legitimasse a relação entre estrangeiros e fosse obrigatoriamente soberano em qualquer lugar.

Penélope Cruz é um artigo de luxo no sentido de coadjuvação. Quando surge no filme fazendo a ex-mulher enlouquecida e explosiva acaba provando a máxima de que “não existem papéis pequenos, existem grandes atores”. A interferência de sua Maria Helena na narrativa é interessante e carismática. É curioso como seus laços de confiança se estabelecem pelo viés artístico e no fundo existe uma coerência em sua argumentação suja de pólvora. Outra presença importante e arriscada é a do narrador: falar pelos personagens em alguns momentos pode de certa forma roubar o entendimento espontâneo do expectador, mas também ajuda a nos situarmos no contexto afetivo de cada um.

https://www.youtube.com/watch?v=2gzdYgtHw2w

Maria Helena, Juan e Cristina

O final do filme acaba sendo a antítese do seu começo. É então que a grande metáfora é finalmente cristalizada. A comparação entre o trajeto de uma viagem cheia de promessas de verão e o caminho das relações que começam por pactos monogâmicos e acabam ganhando novos acordes e podem terminar em um fim de viagem broxante e corrompido.

Às vezes fico pensando se em todo pacto inicial, não deveria existir um item que compreenda justamente a possibilidade da quebra de pacto. Não que eu seja pessimista sobre o amor, mas é que os pactos do coração são cheios de emendas que surgem no caminho, e não há como evitar, o coração é mandão e desobedece nossos comandos. Sempre que um coração promete algo, ele faz figas com a mão nas costas. Nessa hora somos surdos com as regras. Eu também sou a favor do pacto, mas e se os pactos não se sustentassem pelos começos? E se precisassem de revisões, e reavaliações. Difícil, muito difícil. É uma pena o coração não ter a tecla SAP.

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