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Você sabe perdoar?

Perdoar é uma das coisas mais difíceis que existem nesse mundo. A gente faz a posição invertida na yoga, calcula derivadas de funções reais, lê O Jovem Werther – em alemão e sem cometer suicídio. A gente faz cem abdominais sequenciais, corre a São Silvestre, cria cinco filhos – sem a ajuda do pai. A gente enfrenta a crise política, lambe o cotovelo, não se estressa no trânsito de São Paulo – mesmo estando atrasada para o trabalho. Mas perdoar é uma tarefa que a gente simplesmente não consegue cumprir.

Não que a gente viva com o coração cheio de rancor. De maneira alguma. Tem coisa que a gente tem que deixar ir pra abrir espaço pra coisa nova entrar. Desapegar, é o que o povo diz. E isso a gente faz maravilhosamente bem. Aliás, a gente é a geração que melhor fez isso na história da humanidade. Perdoar é que é o problema. Em primeiro lugar, porque a gente não sabe o que é perdoar. Vira e mexe, ouço gente – geralmente orgulhosa – dizendo: perdoar eu perdoo, esquecer é outra coisa. Ledo engano. É impossível perdoar se a gente não esquecer. Im-pos-sí-vel.

É óbvio que esquecer, nesse caso, não significa apagar do pensamento, deletar da memória, assumir um Alzheimer seletivo, precoce e temporário. Não é nada disso. O perdão exige que a gente se esqueça não do fato – mas de como ele nos fez sentir. Dizer que perdoou uma eventual traição, mas se sentir traída sempre que o cafajeste dá as caras não é perdoar. Se orgulhar por ter desculpado a amiga que não soube guardar segredo, mas não perder a oportunidade de comentar num churrasco em família o quanto ela foi sacana não é perdoar. Aceitar de volta o filho que fez as malas e foi embora no meio da maior crise familiar, mas jogar o abandono na cara dele ao menor sinal de discussão não é perdoar.

O que a gente faz é ressignificar as nossas dores – e a importância que elas assumem nas nossas vidas. Se um mês após uma traição a gente nem conseguia olhar nos olhos de alguém e hoje a gente já tá trazendo ~gente estranha~ pra dormir em casa, é porque a dor de ter sido traída, hoje, ocupa um outro lugar e, com sorte, virou uma outra coisa. Mas ainda assim, a gente tá longe de perdoar. Porque perdoar exige renúncia a muita coisa – especialmente ao sabor (sempre delicioso) de se estar coberto de razão. Não que quem pede perdão sempre esteja errado. Mas, para estar na posição de precisar de perdão, essa pessoa certamente descumpriu um trato ou agiu unilateralmente. E aí, ter o álibi de ter se mantido certo, mesmo quando o outro fulano errou, é um tesão. Porque aí a gente se sente maravilhoso, justo, honesto, bondoso, lindo, gostoso e no direito de gritar isso aos quatro ventos enquanto aponta o dedo para o erro do outro.

Agora, a partir do momento em que se perdoa, já era. Porque perdoar pressupõe voltar a um patamar de igualdade. Recomeçar. Assumir um estado natural de confiança mútua, até que a promessa seja quebrada novamente. Já não importa quem errou, o que passou passou, então vem – diriam Roberto Carlos, na canção original, e Claudia Leitte, na regravação meio romântica, meio axé Bahia. E é isso que é perdoar: tratar o passado como passado, viver o presente e ter perspectivas de construir um futuro bom com quem foi perdoado. Pode até parecer oficina de como fazer origami modular com o seu papel de trouxa, mas isso é que é perdoar. O resto é qualquer outra coisa.

E a gente, meus bens, só sabe fazer o resto.

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