Esta foto é sua?

Eu passaria a vida inteira naquele bar. Só eu e ela.

Eu estava ali de frente para a minha mulher. O fígado da minha esposa, da minha linda, da minha tudo não aguentou o tempo que acreditamos que aguentaria. Perdi Ana, a mulher da minha vida.

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– Jean, precisamos conversar.
– Diga, amor.
– Fui no doutor Olavo e descobri uma coisa.
– Meu deus, o que você descobriu, Ana?
– Estou com o fígado meio mal.

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A nossa vida sexual tinha terminado. Não havia mais toque íntimo. Agora velhos e cobrados pela vida, nossas mãos grudadas uma na outra faziam mais sentido do que os xingamentos e pegadas que, quando novos, eram nossa felicidade diária.

Se tinha coisa difícil, quase impossível, era irmos a alguma festa. Depois de tudo o que aconteceu na nossa vida, não havia clima. Conto nos dedos em quantas comemorações fomos nesses cinco anos. Duas. Uma festa de aniversário da irmã de Ana e uma de Natal; dessas em que a família inteira percebe o quanto aquilo tudo é uma guerra fria. A maioria não gostava nem um pouco do outro e, com sorrisinhos as mulheres se enganavam, papos sobre futebol deixavam o clima mais ameno entre os homens.

Ana só conseguia conversar com uma pessoa naquele ambiente. A minha irmã. Porém, quando a minha mulher caiu devido ao porre homérico de Whisky, a maioria cochichava coisas como:

“Se antes do Pablo era assim, imagina depois.”
“Ela ainda não superou, coitada.”
“Têm que internar.”

Família grande pode ser uma benção, mas também pode ser uma merda; era esse o caso da minha. O porém é que a minha única companhia nesse mundo estava agora mais perdida do que nunca. Entre os rastros de vômito e de lágrimas, Ana claramente tinha desistido de tudo. Do meu amor. Da vida dela.

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A depressão a pegou de jeito. No momento mais difícil das nossas vidas, o Whisky explodiu como a fuga que ela tanto buscava. Ana tornou-se uma dessas pessoas que se traía com as bebidas. Há quem se traia com amor, com dinheiro; ela preferia Whisky.

Lá em casa eram comum fotos estarem espalhadas por todos os lados, a maioria delas servindo de base para garrafas de Jack Daniel’s, Black Label e Chivas.

Por ser fotógrafo, muitas dores dessa vida se fixam na minha memória como imagens sangrentas. E, num desses click’s que a vida dá sem muita explicação, perdemos nosso primeiro e único filho. Pablo, o nosso Pitico. Ele envolveu-se em um acidente de carro. Morreu junto com um amigo e duas amigas. A perícia diz que foram encontradas duas garrafas dentro do carro: uma de vodka, outra de Montilla. Pablo dirigia o carro; eles bateram a 160km/h.

O enterro foi um processo bastante doloroso para todos. Os quatro amigos eram vizinhos nossos e foram enterrados no mesmo cemitério. A família de uma das garotas estava revoltada. Dizia que sua filha não bebia. Que morreu na mão de moleques irresponsáveis. Alguns familiares dela passaram próximos de onde acontecia o velório do nosso filho e gritavam: Pablo assassino.

Ana, ao ver o caixão fechado, começou a gritar de forma estridente e insana:
-Meu filho não é assassinooo. Meu filho não é assassinoooo!

O constrangimento e a dor nunca foram tão grandes na minha vida. Aquela era, de longe, a pior fotografia que eu teria guardada para sempre na minha cabeça.

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Numa dessas viagens que toda família faz, deixamos Pablo entrar pela primeira vez numa piscina sem as boias que o protegiam. Aos cinco anos e já matriculado na natação, supervisionamos suas tentativas de ser peixe enquanto tomávamos uma deliciosa cerveja gelada daquele hotel mais que bonito; era paradisíaco. Eu tirava fotos do meu filho e minha esposa. Eles sorriam. Naquele final de semana eu tinha uma certeza: nós definitivamente éramos a família mais feliz do mundo.

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A gravidez de Ana não foi nada tranqüila. Seu ciúme intenso e as inúmeras brigas que tínhamos para que ela não bebesse tornaram tudo muito conturbado. Parecia que Pablo viria pronto para entrar na guerra que iniciamos. Ana morria de ciúmes do meu trabalho. O fato de eu fotografar, às vezes, me colocou em situações delicadas com a minha mulher. Revistas masculinas me procuravam para que eu tirasse fotos das mulheres mais bonitas do país. Aceitei alguns trabalhos, declinei outros. Assim, Ana não perderia nosso filho numa dessas idas ao banheiro para eliminar a cerveja que tinha no corpo. Ela havia parado com o Whisky. Não parou com a cerveja aos finais de semana.

Certo dia, aos três meses de gravidez, ela me confidenciou:

– Jean, eu engravidei pra você não esquecer que a sua família é aqui. Em São Paulo. No nosso canto. Pra não deixar nenhuma dessas mulheres vazias te roubarem de mim.

Aquilo me chocou, seu ciúme havia chegado no ápice.

Antes de ela engravidar, tivemos uma briga terrível quando ela passou a desconfiar que eu havia transado com a capa da Playboy daquele mês. Ela gritava e quebrava garrafas pela casa toda.

– Você não vai me iludir, eu sei da sua vida por aí. Muda de vida. Você vai me perder pra sempre. Seja comigo o que sou com você. Se põe no meu lugar, seu cretino.

Nesse dia o sexo salvou nossa noite. Não foram todas as noites que acabaram assim.

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Estávamos em um restaurante bonito; havia ganhado um bom cachê naquele mês, decidi fazer uma surpresa grande para comemorarmos o primeiro ano de casados. Ana já estava embalada pelo Jack Daniel’s e disse algo bem safado para mim:

Hoje eu vim sem calcinha, você tiraria uma foto?

Eu me perdi todo e, meio confuso e totalmente excitado, concordei com a ideia. Seu vestido era curto, justo, delicioso. Suas coxas brilhavam como nunca.

Ainda não sabia tanto sobre aquela mulher que prometia ser uma bomba de desejos. Não entendia bem como ela misturava tanto ciúme em meio a um tesão descomunal.

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E cada vez mais eu queria ficar perto dela. Entender o que era uma mulher de verdade. Nunca tinha roubado um beijo de ninguém. Ela foi a primeira em que olhei nos olhos e me deixei levar. Não tinha mais timidez, não tinha mais nada que não fosse vontade.

Ela me despistou algumas vezes, em outras concordava em me deixar passar a noite na casa dela. Eu era um garoto. Ela era um mulherão de 25 anos. Resolvida, independente. Era tudo o que eu mais desejava pra mim.

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Sabe essas mulheres que você olha duas ou três vezes e já imagina um mundo de coisas? Dando um rolê, tomando umas juntos; talvez isso fosse apenas minha mente criando novas fotografias.

Eu nunca tinha chegado em alguma mulher sem conhecê-la antes. Aos 17 eu estava apaixonado no meio de um bar. As leis daquela época não eram tão rígidas com menores que gostavam de copo. Meu amigo Tiago, ao perceber meu interesse absurdo por aquela mulher, incentivou eu chegar, falar algo. Eu não sabia o quê; ele aconselhou:

-Fala a primeira coisa que vier na sua cabeça. – Achei um bom conselho.

– Olá, meninas, eu e meu amigo podemos sentar pra beber uma cerveja com vocês?
– Claro que pode, querido.
– Meu nome é Jean, prazer. O seu?
– Prazer, Jean. Meu nome é Ana. – E Ana foi rápida para fazer eu me sentir bem. Logo disse:
– Garçom, mais dois Black Label, por favor.

Nem acreditei que aquela mulher me aceitou na mesa ao lado dela. Eu passaria a vida inteira naquele bar. Só eu e ela.

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