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Eu prefiro quem sabe partir, mas tudo o que eu consigo fazer é ficar

De repente, tudo passa a não fazer mais sentido. O beijo de bom dia é para apenas cumprir formalidade. Andar de mãos dadas em público, só se a gente estiver num evento social em que alguém nos conheça – não podemos dar a eles a alegria de ver que o casal margarina derreteu e virou gordura no fundo da panela. A conchinha à noite, na cama, chega a ser burocrática. Falar “eu te amo” a gente até fala, mas já não demonstra mais – e o que são palavras senão conjuntos fonéticos que se perdem no vento?

Estamos nós dois aqui, na mesma casa, com vontade de estar em casas separadas. Na mesma vida, com vontade de estar em vidas separadas. No mesmo mundo, com vontade de estar em mundos separados – antes que os nossos mundos se colidam. O que deve acontecer em breve, dizem os astrônomos. Afinal, quando não se olha com paixão – e paixão é uma entidade tão distante que a gente nem se lembra mais da cor dos olhos dela – todo fim é previsível. De novela, de festa, de relacionamento.

O nosso tá aí, prestes a acontecer. Começou de leve, quando eu falava e você já nem fingia prestar atenção. Nem um “aham”, “hmmm” ou “legal”, nem a menor tentativa de cumprir função fática, nem a intenção de ser educado. Começou também quando eu me sentia em êxtase ao saber que você, por algum motivo, não voltaria para casa aquele dia e que eu poderia assistir a quantos filmes quisesse, ler quantos livros desse, ouvir quantas músicas eu soubesse cantar. Sem a censura do seu olhar recriminante, sem o mau-humor do seu monossilabismo, sem o peso do seu silêncio.

A princípio, a gente acha que é só o nosso individualismo se manifestando. Que é um respiro na nossa rotina. Que é uma tentativa da gente não anular o nosso íntimo na vida a dois. Mas depois a gente percebe que é falta. De vontade e de amor. Ou falta de acreditar no amor. Porque invariavelmente, todos os amores da minha vida terminaram assim: chatos, empoeirados, guardados num tempo remoto. Se eu revisitar o meu passado, vou perceber que até existe amor em Ésse Pê. Mas que ele é volátil, pouco crível e dura pouco.

E embora eu saiba o quão difícil é criar coragem para partir, eu sei que é hora de partir. Mas o medo me anula. Me subjuga. Me deixa aqui, nesse misto de comodidade confortável e liberdade cerceada. Eu, muito provavelmente, não sou o que você sonhava. Mas você quer tentar, enquanto eu quero desistir. Ir a qualquer lugar sem você, fazer qualquer escolha sem pensar em você, jogar meu corpo em qualquer cama que não tenha a sua presença. Só que eu sempre tive muito dessa coisa de abdicar de mim para não ver o outro chorar. E eu não quero ver você chorar. Não quero ver você sofrer. Não quero ver você me odiar. Não quero que sua boca encha de formiga numa vala de um terreno baldio. Não quero.

Eu, particularmente, sempre preferi quem sabe partir. Mas por ora, tudo o que eu consigo fazer é ficar. Doa a quem doer. Hoje, dói em mim.

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