Fui padrinho da minha ex Esta foto é sua?

Fui padrinho da minha ex

Ainda não sei se eu fiz aquilo por querer, ao mundo, fingir maturidade, ou se agi daquela forma por achar que eu, mesmo diante de um acontecimento trágico como aquele, seria capaz de forjar sorrisos contagiantes. Só sei que, agora, já é muito tarde para pensarmos na causa. O que interessa a você, caro leitor, são as consequências catastróficas dos meus atos.

Tudo começou com o segundo “sim” completamente inconsequente que, em minha vida, eu disse à Rosinha. O primeiro, há quinze anos, escapuliu da minha boca em um jantar. Eu estava escolhendo a cerveja e, do nada, antes que eu pudesse perguntar ao garçom se a Original estava bem gelada, fui pedido em casamento. “Caralho! Era só o que me faltava.”, pensei. Eu só queria sair de lá bêbado, com o estômago entupido de yakisoba e, com sorte, ver um filme do Stallone quando eu chegasse à minha casa. Porém, infelizmente, naquela ambiente que cheirava fritura, antes mesmo de conseguir me embriagar, eu assinei meu atestado de imbecilidade. Logo eu que dizia “não” para tudo, surtei e disse “sim” para uma coisa que engorda, empobrece e mata o tesão. Acho que não neguei o pedido da Rosinha por medo dela abrir o berreiro e de me fazer passar vergonha naquele ambiente cheio de famílias que encenavam felicidade. Hoje, sem dúvidas, sei que o melhor que eu podia feito, naquela situação, era ter simulado um enfarto. Teria colocado a mão no peito, feito cara de dor e dito: “Chamem uma ambulância, pois acho que estou enfartando!”. Só que não! Eu, burramente, disse “sim”.

Mas não gastarei o tempo de vocês falando do primeiro “sim” integralmente inconsequente que eu disse à Rosinha. Neste texto, falarei do segundo “sim” sem sentido que disse a ela e das reações escabrosas que ele, somado a um circuito de coisas inesperadas, gerou.

Foi assim: ela me ligou e, após enfatizar que a minha presença, em meio àquele monte de ladras especialistas em bem-casados, seria indispensável, perguntou-me se eu aceitaria ser padrinho de casamento dela. Logo eu, o ex-marido que ela deixou à beira da miséria. Logo eu, o cara que ela, por anos, quase matou com aquele violentíssimo bafo matinal. Bom, a minha resposta você já sabe. E eu sei que você, o Napoleão Bonaparte, o Tonho da Lua e qualquer um dos Trapalhões, sem hesitar, teria negado uma insanidade como essa. Mas eu, provável portador do Transtorno de Roberto Baggio – patologia que faz com que quem a possui cometa cagadas em momentos decisivos da vida -, caí nessa furada.

Desliguei o telefone sem ao menos saber quem seria meu par no dia do altar. Só sabia que, no mês seguinte, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, ela se casaria. E que eu, nas próximas quartas, deveria comparecer a um curso de padrinhos. Isso mesmo que você leu! Eles não têm mais o que inventar, não acha? Uma coisa é fazer curso de inglês, de roteiro, de fotografia e até de malabarismo. Outra, muito diferente e sem o menor sentido, é efetuar um curso de padrinhos. “Quem é o idiota que precisa de um curso para aprender a entrar na igreja e a esperar, sem dormir, o padre falar aquela baboseira toda?”, questionava, com ironia, toda vez que, sem sentir a mínima sensação de culpa, trocava aquele curso ridículo por ninfetas (com MAIS de dezoito anos) endiabradas na web.

Antes do casamento, só falei duas vezes com a Rosinha. Na primeira, ela me mandou um SMS dizendo o nome da loja na qual eu deveria alugar meu terno. Na segunda, ela me mandou um e-mail agradecendo e, para não me deixar esquecer o quanto ela é interesseira, no final, aproveitou para cobrar a pensão atrasada da Robertinha – nossa filha de onze anos.

Finalmente, após muita expectativa, o grande dia chegou. Eu tomei um banho longo, aparei o bigodón, vesti um terno que deixou a cara do Roberto Carlos em dia de Especial de Natal e, para me livrar da tensão, fumei um baseado bem servido. Afinal, além de vê-la casando – o que já não é legal – encontraria com a mulher mais malvada que conheci: a minha ex-sogra. Disse “conheci”, pois, uma das tantas merdas que fiz naquele dia, foi ter assassinado a bruxa.

Logo que eu cheguei, graças ao tom de azul horroroso presente em vários ternos, reconheci os outros padrinhos. Também não demorei muito para distinguir, em meio àquele monte de mulheres com cabelos que mais pareciam capacetes medievais, as madrinhas. Elas usavam vestidos amarelos, acredita? Vestidos que somados ao azul do trajes dos padrinhos, com certeza, fizeram com que aquela festa me fizesse achar que eu estava presente em uma grande convenção de carteiros.

“Rodrigo, você está ótimo!”, disse a Marina, aquela que havia sido escolhida para fazer par comigo. Eu a conhecia muito bem. Ela era a prima mais nova da Rosinha. Devia ter por volta de uns vinte e dois anos e, preciso confessar: até vestida de gemada ela estava uma delícia. Sabe como é, né? O corpo, desde a última vez que a havia visto, estava bem mais evoluído e formado. Se é que você me entende. “Eu? Já se olhou no espelho? Você que está linda!”, respondi passando a mão no bigode. Na verdade, queria mesmo era ter dito que ela estava deliciosa, mas sabe como é. Por precaução, optei por um adjetivo menos lobo e mais cordeiro.

Conversei com ela por alguns minutos. Ela me contou que queria ser designer de joias e que estava cursando faculdade de moda. Contou também que não havia se esquecido do dia em que ela fumou maconha, pela primeira vez, comigo. O que foi? Ficou chocado? Ué, não tive escolhas. A família toda estava reunida no sítio dos pais dela e ela, quando acordou para beber água, flagrou-me com um cigarrinho do demônio na boca. O que eu podia fazer? Fui educado: ofereci. E ela, também por educação: aceitou. Sei que você está me achando um crápula, mas, acredite, ainda vai me odiar mais. Ou terá dó. Sei lá.

“Antes de entrarmos na igreja, quero lhe mostrar uma coisa!”,  disse Marina antes de, pelo braço, puxar-me para uma esquina bem afastada dali. “O que é? O casório já vai começar. Não podemos demorar!”, afirmei, enquanto ela, literalmente, arrastava-me para um lugar distante de todos. Quando chegamos, ela colou minhas costas num muro e me beijou. Juro que, mesmo se eu quisesse, não teria tempo para me desvencilhar daquela coisa gostosa. Mas é claro que eu não queria fugir dela. O beijo começou delicioso, mas logo senti algo estranho em minha boca. Algo que disputava espaço com a língua dela. Senti raiva do meu dentista, pois achei que aquele objeto não identificado se tratava de um implante mal realizado. Porém, para evitar maiores constrangimentos, dei uma paradinha rápida no beijo e, antes que ela tivesse tempo para abrir os olhos, engoli a coisa estranha. Engoli, imaginei-me dando um soco na cara do Dr. Paulo e voltei a beijá-la. Dei umas passadinhas de mão na bunda dela também. Ninguém é de ferro, né?

Assim que chegamos à igreja, entramos em uma sala na qual todos os padrinhos e madrinhas já estavam alinhados, formando uma espécie de fila. Cumprimentei-os, de longe, com um sorriso amarelo e fiquei no meu lugar. Aguardei a abertura da porteira para que eu, junto com aquela manada emperiquitada, entrasse no local no qual aconteceria a cerimônia. Estava tudo indo bem. Até melhor do que eu esperava. Ficamos ali, plantados, por cerca de uma hora. Até que, uma espécie de monitora de acampamento, do tipo que adora brincar com uma cinta-cacete, fez um sinal para que entrássemos. Foi aí que meu inferno começou.

Quando coloquei o pé no tapete grosso da igreja, os rostos dos convidados começaram a inchar. Pareciam baiacus tentando assustar um predador. Foi horrível. Rostos inflados como bexigas e todos, sem exceção, olhando para mim. Não era apenas isso que me afligia: a música estava estupidamente alta. E só eu parecia notar.

“Você percebeu que todo mundo está cabeçudo?”, perguntei para Marina enquanto rumávamos ao altar.

Ela apenas riu.

“Acho que estou passando mal.”

Ela, tapando os lábios com a mão, riu ainda mais alto.

E a cabeça das pessoas continuava crescendo. Principalmente a da minha sogra que, por natureza, certamente, tinha passado mais de dez vezes na fila da cabeça. Aquele monte de cabeçorras me olhando estava me deixando agoniado.

“Está curtindo seu presentinho?”, ela me perguntou.

“Presentinho?”

“Já que você me apresentou o THC, eu fiz questão de lhe apresentar o LSD! Coisa fina. Meu amigo trouxe da Suíça. O mais forte de toda a Europa. Não sei se é lenda, mas me disseram que, certa vez, o Keith Richards tomou metade da dose que dei a você e acabou preso por defecar sobre uma viatura de polícia. E olha que ele é bem parceiro das drogas!”

“Você ficou louca?”

“Sempre fui louca. Por você! Nunca reparou no jeito que eu lhe fitava?

“Estou falando do ácido que me fez tomar, menina!”

Ela riu e as cabeças dos convidados, naquele momento, além de gigantescas, estavam mais escuras do que eram no mundo real. Todos estavam negros e cabeçudos. Senti-me em meio a um exército de Playmobils do Zimbabwe.

Foi aí que a música mudou e que, as grandes portas de madeira se abriram para a entrada da noiva. E, para meu susto, ela entrou de mãos dadas com o Bob Esponja. Podem rir, seus insensíveis! Queria só saber com o seria se tivesse acontecido com vocês.

Onde eu estava? A sim, na parte que o Seu Maurão, pai da Rosinha, havia se transformado no Bob Esponja. Nessa hora, assim que o vi com aquelas calças quadradas, eu não consegui me controlar e dei um grito. Gritei bem alto e todas as cabeçorras escuras olharam para mim.

Então me calei e pela primeira vez, pensei em olhar para a fuça do cara com quem ela estava prestes a se casar. Foi um choque. O noivo era o Ney Latorraca. “Como assim? Sempre ouvia pessoas dizendo que o Ney era gay”, pensei. Aquilo me espantou. Entretanto, assim que o padre começou a falar, algo bem pior começou a acontecer: comecei a ouvir risadas diabólicas.

“Você não está ouvindo essas gargalhadas?”, perguntei para Marina.

“Relaxa e aproveita a sua viagem!”, ela me respondeu.

Alguém estava rindo de mim.  Adivinhe quem? Dou-lhe apenas uma chance. Minha sogra, claro. Ela ria, cada vez mais alto, e só eu a ouvia. O volume daquelas gargalhadas, rapidamente, tornou-se ensurdecedor. Foi aí que eu, sem pensar duas vezes, gritei:

“Fique quieta, sua piranha velha!”

Todos ficaram em silêncio. Até o padre. Eu suava, a Marina ria e o Ney fazia um biquinho afetado de ódio.

Então a celebração recomeçou. Mas não demorou muito para que eu desse mais um berro: “Eu sei que você é uma bruxa de verdade e que está usando seus poderes para me confundir. Eu sei!”

Nessa hora o Ney veio em minha direção, provavelmente para tentar conversar, mas eu nem esperei ele abrir a boca e tratei de dar logo um murro na cara dele. E parti os óculos de armação vermelha que ele usava. Todos, quase que simultaneamente, fizeram o mesmo som que fariam se tivessem visto o touro acertar um toureiro.

O padre, assustado, correu em minha direção. Eu não sabia como agir e acabei, para evitar sermões, passando uma rasteira na múmia de batina. Espero que Deus me perdoe, pois o padre abriu a cabeça e até, assim que viu o sangue, resmungou xingamentos pecaminosos.

Rosinha, após ter visto o padre estendido no chão, desmaiou. E a mãe dela, aquela cadela, começou a me filmar usando um celular.

Tinha certeza que ela usaria aquele vídeo para me incriminar, então, sem pestanejar, iniciei um combate corpo a corpo com a minha ex-sogra. Não sabia que a baleia era tão forte. A filha e mãe da puta não soltava a porra do iPhone. Foi aí que, para tentar fazer com que ela largasse o aparelho, comecei a morder o mamilo da maquiavélica mulher. Mas ela, bravamente, resistiu às minhas dentadas e manteve a mão firme. Não soltou nem quando eu, como fez o Tyson com a orelha do Holyfield, cuspi um pedaço da Dona Matilde. Então, apelei para outra técnica: o temível pula-pirata, ou como é conhecida pelos torturadores profissionais dos carteis mexicanos: o “Fio-terra Del Diablo”. Enfiei, rapidamente, o dedo indicador no cu dela e, finalmente, depois de um grito que ecoou por toda a igreja, ela cedeu e abriu a mão. Contudo, assim que soltou o celular, ela agarrou a minha bola direita. Foi desespero à primeira pegada. Rapidamente me recordei do vídeo e, para que comigo não acontecesse o mesmo que rolou com o protagonista dessa pérola “youtubica” e para me livrar daquela chave testicular, eu comecei a bater a cabeça da puta velha em um banco de madeira. O que queria que eu fizesse? Queria que eu a deixasse exterminar meus espermatozoides queridos?

A velha morreu na hora. E, apesar de eu ter dito para juíza que o óbito não ocorreu devido aos traumas e sim à velhice. Acabei atrás das grades. Não adiantou. Também falei da história do LSD, porém, para minha surpresa, o exame toxicológico não detectou a presença de nada além de maconha em meu sangue. Acredita que a droga que eu ingeri havia sido desenvolvida por um daqueles meninos prodígios e que, além de possuir um efeito extremamente alucinante, ela é uma substância indetectável em exames comuns?

Agora peço licença, pois chegou a hora do meu banho de sol. Mas antes de dizer tchau, eu gostaria de dar um conselho a você, querido leitor: aprenda a dizer “não”. Não faça como eu ou como o protagonista do filme “A Grande Beleza”, que somente com 65 anos aprendeu a não perder tempo fazendo coisas que ele não queria efetuar.

E, se puderem, venham me visitar. Só peço que não se esqueçam de trazer alguns maços de cigarro. Sabe como é, né? Aqui, meu amigo, o cigarro faz bem pro cu.

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