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Não seja o porquê de alguém

Desde pequeno sempre achei que havia algo especial em mim. E sei que visto, assim, de cima, lendo sem desvendar o meu interior, pode parecer algo egocentrista, mas quem disse que esse “algo especial” era algo bom, doce e fácil de lidar? Naquela idade eu não sabia se um dia isso poderia ser algo bom, muito menos tinha dimensão das minhas qualidades. Até porque ninguém havia me dito que o meu jeito diferente de pensar poderia ser uma qualidade. E seria tão bom se tivessem. Eu, pequeno, gordinho, de óculos, com medo do mundo, sem muitos amigos, lembro quantas vezes tive que dizer para a professora que não tinha ninguém para fazer trabalho em dupla comigo. Muitas vezes tive que fazer o trabalho com ela, sentados na mesa dela, frente a sala inteira. Sorte que eu gostava dela, mesmo quando ela passava aquele perfume com cheiro de amêndoas que, hoje, depois de anos, posso confessar… odiava.

Nasci em São Paulo, mas morei toda a minha adolescência numa cidade pequena e, tristemente, demorei anos para fazer amizades. Se é que as fiz. Eu não era do grupo do fundão, nem das primeiras carteiras, sentava onde sobrava, sempre fui assim, não queria dar trabalho, chamar atenção e, diferente de muitos, sempre que possível, preferia ser invisível. Trabalho em grupo? Deixa que eu seguro a cartolina; sempre me escondia atrás dela. Eu não gostava de futebol; preferia desenhar, pintar, estudar os dinossauros. Eu não gostava da menina mais bonita da sala; gostava daquela que todos diziam ser a mais estranha. Muitas vezes, eu ia de moletom para o colégio no verão, pois não queria mostrar que engordei mais nas férias. Trabalhar com arte? Vai morrer pobre. Escrever? Coisa de viado. Cantar? Você não canta bem. E quando necessário, pois não haviam outras opções, ao apresentar algum trabalho na frente da classe, ficava com vergonha de ficar vesgo, pois, até hoje, sempre que fico nervoso, um dos meus olhos quer abraçar o meu nariz. Sempre fui bobinho, dividia o meu lanche no colégio, mas nunca dividiam o deles comigo. Contava as coisas do meu coração para as meninas que gostava, sempre virei amigo. Ou nem isso. Amigos, do colégio? Não tenho nenhum até hoje. Colegas, depois do possível sucesso? Vários! Vi que você foi no Jô, sempre soube que você seria um sucesso; sabia…?

Para alguns, algo simples, coisa de adolescente, brincadeirinha e fase de colégio. Para mim, uma eterna incompreensão, um silêncio ao voltar caminhando da escola. Fazer o que se eu carregava comigo toda essa sensibilidade? Seria um mal da alma? Seria frescura minha? Eu não tinha controle das minhas dúvidas, dos meus desenhos, dos meus medos, das minhas inseguranças. Nunca fui o garoto mais popular do colégio, mais bonito, mais rico, mais descolado… como é o nome dele mesmo? Frederico, dizem. E quando alguém me via triste, diziam, como se tivessem a solução na ponta da língua: mas ele sempre foi tão alegre. Talvez eles nunca tivessem se doado a ver um pouco mais do que o meu sorriso e o meu jeito rápido de falar e gesticular com as mãos.

Nunca pensei em me suicidar, longe disso. Bem longe, na verdade. Mas sempre achei que a solução dos meus problemas fosse a solidão, a introspecção, era difícil viver num mundo que somente eu conseguia entender as linhas tortas da minha imaginação e do meu coração. Sinto isso até hoje. Mesmo que aos poucos ainda brinque de enfrentar o mundo e as suas verdades absolutas. Com a idade aprendi a não me relacionar e entregar o meu coração para todos que me aparecem. Trazer para o meu interior mais íntimo amizades ou amores que não transbordam como eu, não faz mais sentido. Dividir as minhas dúvidas com quem irá rir ou desenhar, por quê? Compartilhar as minhas sensibilidades com quem acha que pulso firme é sempre solução, por quê? Tentar abrir a cabeça de pessoas que, insistentemente, continuam acreditando que o mundo é feito de verdades absolutas, por quê?

Se eu choro?; sempre que possível. Se eu amo?; todos os dias quando acordo e lembro que os dias estão passando. Se eu tenho sonhos?; uma coleção deles, todos malucos. Se eu sou feliz?; e tem como não ser? Se eu fico triste?; com toda propriedade do mundo. Se eu tenho medo da solidão?; por isso escrevo. Se sei o que fazer com a minha sensibilidade?; conservo comigo e divido com quem sei que irá abraça-la como eu abracei. Se me amo?; cada, obscuro, pedacinho.

Os anos passam e eu ainda não sei ser diferente. Me emociono sozinho escrevendo e lendo coisas que me identifico, supro as minhas carências com as pessoas que me leem e me desejam o bem, como o que vejo pela frente na eterna ansiedade de catastrofizar todas as situações, sumo e apareço para com quem amo, e se me perguntarem o porquê, não sei, nunca sei… um dia me explico. E dividir tudo isso, mesmo para mim que muitas vezes sou arquiteto de algumas palavras, é uma intimidade que me traz medo e insegurança. Ainda não sei lidar com tudo isso, talvez, um dia, quem sabe. Escrevo para mim, mas divido com o mundo. Minhas dores são abraços para vários. Se aperta em mim, por que não apertaria em outros que também passam pela mesma coisa que eu? Me deixo sofrer para mastigar os aprendizados, para compreender a mim e aos outros, já que poucos fazem; saber conversar com a tristeza é sempre libertador!

Quando escolhi dar ouvido aos meus sentimentos e à minha arte, sempre soube que carregaria comigo uma solidão nem sempre fácil de lidar. Parece que nasci com uma missão maluca dentro de mim, algo de mundo, como se eu tivesse que doar a minha vida pessoal para a realização dessa missão que, confesso, ainda não tenho a mínima ideia de qual seja. Coisa de gente maluca, eu sei, mas, tudo bem, me parece sincero. Talvez, daqui uns anos, eu não seja ninguém e essa sensação de “algo diferente dentro de mim” que sempre senti que carregava, seja somente uma dor de barriga que, como sempre, coloquei pitadas de lirismo. Ou, um dia, numa dessas esquinas da vida, eu seja alguém importante e faça uma grande diferença no mundo e possa gritar a todos por aí que ouvir a nossa intuição, por mais maluca que ela seja, é sempre um presente que só nós conseguimos desatar os laços. Um dia conto para vocês.

PS: Sobre as amêndoas, Professora, não leve para o pessoal, a gente aprende tanta coisa na vida…

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