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O que ainda me faltará quando já não me faltar mais nada?

Eu sinto falta. De vontade, de tempo, de objetivos na vida. De ar, de carinho, de disposição. De sono, de banho, de fome. De filmes bons, de livros bons, de músicas boas. De um álcool bom, de um petisco bom, de uma conversa boa.

De uma vida boa, sempre que eu poderia estar dormindo, mas estou acordada. Sempre que eu poderia estar transando, mas estou resolvendo problemas. Sempre que eu poderia estar num karaokê, mas estou numa sala de reuniões. Sempre que eu poderia estar tomando uma caipirinha, mas estou dando satisfações sobre os meus fracassos. Que, por ora, são muitos. Incontáveis. A começar pelas minhas faltas.

De vergonha na cara, sempre que eu deveria estar trabalhando, mas estou no Facebook. Porque se eu tivesse deixado o celular no modo avião enquanto eu estudava, eu teria afastado a tentação de cada notificação. Rodrigo Bastos publicou no grupo Esquerda Revolucionária. Foda-se. Ju Costa curtiu a sua foto. Grande bosta. Jorge Gomez convidou você para o seu evento Niver do Jorjão 2.9. Ca-guei. Jana Mascarenhas também comentou a sua publicação. Problema dela. Porque hoje eu poderia ser CEO. Ficar rica. Comer caviar no Unique. Ficar bêbada de Ciroc. Andar de limusine. De jatinho. De motorista. Com uma Louis Vuitton à tiracolo. Sustentada por quinze centímetros de Louboutin. Mas a tecnologia não deixou.

Que eu deixasse de sentir falta de dinheiro. Porque hoje, eu, que poderia ser CEO e repousar minha cabeça num travesseiro de penas de ganso, tento descansar sobre uma pilha de contas a pagar. De água, de luz, de telefone. Aluguel pro seu Augusto, cartão Dia% pro Dia Supermercados, Vivo Controle pra Vivo. NetFit, Smartflix, NET Combo. Fui pro lado NET voando, voltei rastejando. Como uma salamandra, como uma cobra-coral. Como um DiCaprio que sobreviveu a um urso, quando a pergunta que não quer calar é: até quando eu vou sobreviver com um saldo negativo?

Só no dia em que eu não sentir falta de um talento. Desde que não seja chocolate, qualquer talento me serviria. O de escrever livros que vendem, de cantar músicas que vendem, de fazer filmes que vendem. De ser uma boa engenheira, de ser uma boa médica, de ser uma boa ex-BBB. De ter ideias geniais, de ter um corpo marromeno, de ter dinheiro. Ou pelo menos uma inteligência que fosse capaz de sublimar a necessidade do sucesso e de entender que dinheiro não é tudo. Mas parece que não foi nessa vida, não é mesmo?

Porque antes de entender que dinheiro não é tudo, eu ainda preciso entender um monte de coisas. Racismo, machismo, homofobia. Phrasal verbs, física quântica, a regra do impedimento. Neurociência, a cura do câncer, ornitofobia. O ciúme, a Igreja Universal do Reino de Deus, deus. Pochete, tanga de crochê, calça saruel. Emoticon de nariz no Whatsapp. A construção das pirâmides do Egito, o império Inca, o mistério da Esfinge. Quem decifra quem? Quem devora quem? Quem dorme de edredom no verão de São Paulo? Quem fala Bolsomito? Quem acha graça em Danilo Gentilli?

O que ainda me faltará quando já não me faltar mais nada?

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