Esta foto é sua?

Por que você não olha pra mim?

Ele abandona a cama quando digo que são dez horas da manhã e eu me esparramo para o lado dele soltando um suspiro prolongado e caio no sono novamente sonhando com um filho que não tenho e não sei se algum dia terei.

A luz do quarto está queimada desde que nos conhecemos, há uns três anos. O lustre deve ter sido retirado nessa época, com a promessa de voltar, assim que uma lâmpada mais econômica e, portanto, mais frágil substituísse aquela que apagou pra sempre.

Ele volta ao quarto e abre um pouco as persianas, deixando bafinhos de sol me atingirem para que lentamente o meu corpo acorde, como o dele há uma hora (mais bruscamente com o banho gelado). Eu rosno algum lamento rápido e dou as costas para a janela. A cama parece um útero que eu não pretendo deixar tão cedo.

Um samba invade o silêncio da casa e a janela já está completamente arreganhada. Tem café ainda fresco lá na cozinha. O celular tremeu alguns minutos antes com mensagens de bom dia da minha mãe, que eu custo a responder na hora; algumas fotos de gente estranha tomando banho e um vídeo da filha recém-nascida de uma amiga sorrindo – sinto vontade de vê-lo mais de uma vez, tão bonitinha essa menina com esse lacinho verde, fugindo do óbvio rosa ou lantejoula ou glíter ou Barbie. Sorrio pensando que ela não será comum.

Da janela posso observar a dança mole dele. Os ombros giram como nunca fazem nas noites em que saímos para boates. Sem camisa e com a pele bem branca ele parece não ornar com o seu momento. Ele erra a letra da música que não conhecia e hoje já escutou três vezes. Sinto ciúmes dessa música que faz ele ter vontade de fazer coisas que nunca faz, como dançar.

Ensaia seu novo trabalho. Se afoga em um cara que passa longe do equilíbrio que ele sustenta. Eu me pergunto se quando ele fica sozinho fumando seu cigarro na varanda, perto da ráfia castigada pelo clima quente que fez esse ano, eu me pergunto se alguma coisa nele desmorona. Se algo contamina suas certezas. Se uma folha ocre flutua por ali e faz ele pensar em mim com alguma ternura.

Contornado pela janela quadrangular; ele se concentra na sua vida. Sem me perguntar se tenho frio, moedas ou tristeza; ou se durmo demais por cansaço ou anemia (definiu preguiça desde o começo e assim fiquei). Dançando para si mesmo. Enquanto não tiro os olhos dele.

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