Foto: Thomas Campi

Aquela paixão de ponto de ônibus, metrô, aeroporto…

Hoje é mais um dia comum daqueles em que estou no avião. Escalas, voos atrasados, pessoas com medo da decolagem, crianças querendo tirar foto na cabine do piloto, essas coisas. Mas diferente dos dias em que consigo acordar um pouco mais tarde, hoje estou realmente querendo dormir. E é aí que entra o árduo imprevisto que enfrento… Longe de ser a turbulência ou o trem de pouso que resolveu não dar as caras. É algo bem mais sério e tempestivo: tem uma mulher bonita sentada do meu lado. E como se não bastasse, ela ainda é charmosa e mexe no cabelo como se estivesse numa praia deserta, tomando água de coco, com sol no rosto, passando protetor solar de quarenta em quarenta minutos, pois a sua dermatologista, Renata, aconselhou.

Mas até aí tudo bem. O problema é que estou com sono, e aí me assusta o fato de que posso, repentinamente, dormir e ficar, sei lá, babando de boca aberta, escorado na janela do avião, com a cabeça mole, balançando e acordando com aquela cara de susto e sono entre as breves turbulências. E quando eu acordar com algum movimento brusco ou com alguém me oferecendo suco ou água, ainda fazer aquela cara de “eu não estava dormindo, só fechei os olhos para me concentrar aqui, coisa rápida…”

Por outro lado, posso deixar de besteira e babar, na confiança, esperando que se ela realmente for a mulher da minha vida me aceitará assim, com gostinho de vida real. Ou posso começar a ler um livro de italiano que comprei ontem, para tentar dar uma de homem-charmoso-vamos-para-capri e parlar l’italiano numa ligação imaginaria. Ou posso fingir estar dormindo e, aos poucos, ir escorregando com a minha cabeça em direção ao seu ombro, como quem nada quer. Ou ainda posso dar uma de Joey e soltar um “how you doin”. Pois, assim, por tabela, já saberia se ela gosta ou não de Friends. E como uma pessoa que tem um carinho especial por Friends, já evitaria me relacionar com alguém que – pasmem! – não gosta de Friends!

Eu poderia fazer tudo isso… mas hoje, diferente dos outros dias em que tomei atitude e disse, com convicção, que sabia cozinhar coisas que nem faço ideia se são feitas na frigideira ou no forno, fiz da felicidade eterna uma mera possibilidade e babei como nunca havia babado. Amores de ponto de ônibus, como costumo chamar esses espasmos em forma de paixão, em sua maioria, não são feitos para uma imediata realização, muito menos são uma oportunidade perdida, como muitos dizem. A gente olha, casa com a pessoa numa praia que escolhemos em segundos, dá nome aos filhos, que, obviamente, falarão mais de dois idiomas, se questiona se o sexo é bom, afirma dentro de si que deva ser, cria mil teorias e, ao fim, sai sorrindo. E só. Como se fosse pouco…

Esse é um breve momento que começa e termina lindo por nunca ter acontecido. É um instante de vida feliz que a gente colore dentro de nós e nos faz rir, sozinhos, pois a gente é bobo e alegre! Damos asas à imaginação e voamos sem direção; nos damos o direito de ter esperança e ficamos felizes por ainda conseguirmos ver a vida com lirismo. Admira-la hoje, sem pretensão de um amanhã, sem a necessidade de ter que fazer isso ou aquilo, foi um presente bonito que virou poesia. Falei bonito, eu sei, mas isso não ausenta o fato de ter babado no avião. Espero que um dia ela saiba que eu sou mais que isso. Um dia…

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