É a vida que leva a gente ou a gente que leva a vida? Esta foto é sua?

É a vida que leva a gente ou a gente que leva a vida?

São sete e pouco da manhã. E embora meu dia raramente comece antes disso – por mais que isso me renda olhares tortos no trabalho – hoje eu acordei às cinco. Pra me enfiar, cheia de preguiça social, num ônibus com poltronas reclináveis, ar condicionado e banheiro com janelinha pra estrada. Um ônibus cheio de pompa, com um motorista de camisa social e que vai me levar não sei onde pra eu aprender mais alguma coisa que julgo desinteressante e desimportante na vida.

Apesar das míseras três horas e meia dormidas nessa noite que passou, eu ainda não sinto sono – talvez depois do almoço. Porque a angústia de me reencontrar é maior do que qualquer sono que se poderia sentir. O motorista vira à direita, e o nome da rua é Palestina. Uma Palestina que não sofre ataques aéreos, mas que já deve ter tirado a vida de alguns civis e que amedronta pares de engravatados que saem do trabalho quando o sol já se pôs, pra beijar mulheres que já se puseram em pijamas e filhos que já se puseram a dormir, e finalmente por a TV no canal cinco pra se distrair com os minutos finais do capítulo da novela das nove. O nome da rua é Palestina. O nome do engravatado deve ser João, Pedro, Rodrigo ou Thiago. Mas e o meu nome, qual é?

Sou Bruna. A menina que trabalha, que estuda, que cozinha, que limpa a casa, que lava a roupa, que toma ônibus, que toma anticoncepcional, que toma cerveja e que toma juízo. A-menina-que-escreve-pro-Entenda?!, já me perguntaram algumas dezenas de vezes, deixando transparecer uma ponta de deslumbramento. Você é foda. Como se eu, por ter a afinidade com a escrita e com o bom senso, tivesse um canal direto com um guia espiritual que me dissesse por qual caminho seguir, a que horas sair de casa e qual roupa vestir para o universo conspirar ao meu favor. Como se eu soubesse a fórmula do não envelhecimento. A fórmula da felicidade. A fórmula do não sofrer. As-cinco-maneiras-de-deixar-um-homem-louco-na-cama. Os-sete-truques-para-surpreender-num-primeiro-encontro. A receita pra gozar gostoso. Essas são coisas que, por vivência ou por bom senso, a gente vai tendo noção. Mas saber, saber, eu não sei de muita coisa, não. Sei que sou produto do meio. Mas não sei o que há no meio de mim. Uma escritora de botequim, uma cantora de cabaré, uma filha pródiga. Uma irmã que já foi mais amiga, uma amiga que já foi mais presente, um presente que já foi mais esperado. Uma funcionária rebelde. Uma amante intrépida. Uma deusa, uma louca, uma feiticeira.

Agora, neste exato momento – que já se esvaiu por entre meus dedos – sou alguém metendo caneta no caderno. E Amy ou Elis – sempre elas – metendo voz dentro dos meus tímpanos. Meter, por mais que coercitivo, sempre me parece bom. Sou alguém que gosta da intensidade de palavras inteiras. Sou alguém que olha fotos antigas, com sorrisos antigos, gente antiga e legendas antigas e, não sem propósito, sente uma fisgada de saudade de quem eu fui. Quatro anos mais nova, quatro quilos mais leve. Mais livre, apesar de menos independente. Mais autêntica, apesar de saber menos de mim. Mais sagaz, ainda que menos ligeira. Com uns peitos bonitos, umas tatuagens legais e um cabelo de vanguarda. Que quase se encerram por si só, se não fosse essa mania de tentar ler e escrever o mundo. E é aí que, quase sem esforço, chego à dura conclusão: tem um mundo aí fora me destruindo, meu deus. Me fazendo perder tempo com o que, de fato, não importa. Me fazendo acreditar que leviano é ser feliz. Me enfiando goela abaixo uma ou duas pílulas de corporativismo por dia. Pra ganhar um ou dois dinheiros ao final do mês. E sustentar um ou dois vícios e pagar uma ou duas contas na vida. É a vida que leva a gente ou a gente que leva a vida?

Nesse momento, já não importa. Se esperta menina, que já é horário comercial. Sai dessa imersão de pensamentos, que isso faz mal. Que já é hora de engolir a primeira pílula de corporativismo da semana. Que já é hora de sorrir para o primeiro cliente, não importa o quão moída você esteja por dentro.

Quem é você? Bom, menina, pensamentos torpes a gente deixa pra depois. Agora, vem bater aquela planilha. E escrever aquela matéria. E ir àquela reunião. Que aquele cliente já tá te esperando. E sorrindo pra você. E você não vai fazer uma desfeita dessas pra ele, né? Porque eu sei, menina, que não foi essa a educação que a sua mãe te deu.

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