Esta foto é sua?

Eu sou muito clichê

Quando é pra escrever textão sobre pizza de calabresa, sobre a morte da bezerra, sobre o trânsito na Rebouças, sobre a modernidade líquida e a sobre o romance de #brumar eu escrevo umas crônicas bem das boas. Eu uso um monte de metáfora bonita, um monte de referência inteligente, umas belas conjunções e olha… Em regra fica da hora.

Vira e mexe eu escrevo um monte de coisas bonitas, mas só eu sei que é tudo uma farsa. Eu escrevo bem sobre esses assuntos aí de fora. Eu escrevo bem sobre o vizinho que não dá bom-dia e sobre a blogueira que afina a cintura nas fotos. Eu escrevo bem sobre essas coisas da vida, mas quando é pra escrever sobre ele eu sou muito clichê.

Eu sou tão clichê que até me incomoda.

Eu lembro bem da primeira vez em que eu escrevi um bilhetinho para ele. Peguei um post-it na cabeceira do quarto e a primeira frase que eu escrevi no piloto automático foi um meloso “todos os dias, quando eu acordo, eu agradeço por ter você”.

Reli aquela frase, amassei o post-it, fiquei me perguntando se a inspiração tinha dado tilt, refleti um pouco sobre aquela declaração mequetrefe e percebi que além de ser um clichêzinho meia-boca, aquilo não era verdade.

Eu não agradeço por tê-lo todos os dias quando acordo. Tem dia em que eu acordo com os cachorros latindo enlouquecidamente, aí já levanto pê-da-vida, mal saio da cama e já piso na bosta.

Tem dia em que eu acordo atrasada, tem dia em que eu acordo e corro pro espelho pra ver se acordei magra, tem dia em que eu acordo com a minha irmã gritando, com a luz entrando e com a fome apertando.

Tem dia em que eu acordo cheia de texto pra escrever, tem dia em que eu acordo com a fatura do cartão embaixo da porta e tem os dias em que eu acordo com o interfone tocando e a mulher da Claro ligando.

Tem dia em que eu acordo e preferia não ter acordado e tem dia em que eu acordo e já me distraio com as fotos da blogueira da cintura fina. Tem dias e dias, vocês sabem…

Todos os dias eu acordo de um jeito diferente e em muitos deles eu me esqueço daquele agradecimento matinal por tê-lo na minha vida. Eu vivo atrasada, as coisas se atropelam, minhas manhãs são bagunçadas, mas, para não me deixar em dívida de gratidão com o Universo, ele sempre me lembra. Danado ele. Até nisso ele me salva.

De repente, ali no meio dos dias que nem sempre começam da maneira como eu gostaria, ele me abraça forte, me faz sorrir, me conta uma piada e se declara do jeito mais genuíno que poderia existir.

Ali, na confusão do dia-a-dia, em meio aos planos que às vezes não dão certo, às dietas, às ligações, aos textos que eu estou escrevendo e às bagunças que eu estou arrumando, de repente ele aparece. Ele aparece e o dia se renova. Ele aparece e me dá ânimo novo. Ele aparece e é como se eu acordasse de novo com a oportunidade única de redimir com Deus por não ter agradecido antes.

Baita benção tê-lo comigo.

Obrigada, Mundo.

Que honra viver esse amor.

Espero merecer amanhã e no amanhã de amanhã de novo.

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