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O ser humano não é detestável

O que vejo cada vez mais na internet são pessoas dizendo que odeiam outras pessoas e essa é uma generalização que em muito me assusta e me deprime. “O ser humano é detestável!”, foi o que acabei de ler numa rede social.

Olha, sinceramente, se você pensa isso do ser humano, aposto que não levantou a bunda da cadeira pra ter um dedo de prosa com seu Ronaldo. Ele se embananou todo pegando empréstimo em tudo que é banco pra poder pagar a cirurgia do filho que o Sistema Único de Saúde não cobria. E duvido que você tenha se dado ao trabalho de conhecer Juninho, que fez uma feijoada beneficente pra ajudar seu Ronaldo a quitar a dívida com os bancos.

Também tem Maria, que é apaixonada por José. Ela tem quase setenta anos e ele tem quarenta, cravado. Os dois vão juntos todo domingo pra igreja. Ele é pedreiro e ela conseguiu se aposentar feliz da vida. José estava indo pra capital com o carro que ele financiou até que o motor deu defeito. Foi aí que surgiu dona Hermínia. Ela tinha uma fazenda ali perto, lhe ofereceu água e disponibilizou o telefone pra ele ligar pra Maria e falar que ia demorar um pouco na estrada, mas que estava tudo bem.

E doeu ler que “o ser humano é detestável”, porque Cristina, a mãe do garoto que publicou isso, tem uma voz mansa e trabalha o dia inteiro pra manter seus filhos numa universidade boa. Chega do trabalho à noite e só sossega depois de ligar pra cada um deles, saber se tiveram um dia tranquilo e se já chegaram em casa. Aos sábados ela dá aulas pra crianças de um orfanato de sua cidade. Além disso, fala para todo mundo, cheia de orgulho, que seu menino faz Filosofia numa federal.
Nós passamos a vida acreditando ser necessário realizar um feito grandioso para fazer a diferença e deixar um legado. Mas o significado da palavra “grandioso” vai muito além daquilo que é imponente e capaz de chamar atenção.

Além disso, o ser humano não é incrível apenas pelas coisas das quais abdica em nome de quem ama e do que ama. Não são só atos nobres que os engrandecem.
João é um réu confesso de um homicídio qualificado e eu sentia ódio dele. Eu desejava para sua vida coisas ruins, além dos muitos anos que ele passaria na prisão. Mas, em sua audiência, a avó dele apareceu numa videoconferência segurando o bisneto no colo. João, com quase dois metros de altura e indelicadeza, abriu a boca chorando enquanto abraçava o advogado. Ali ele não era um bandido – era um pai e um neto – e aquelas duas pessoas o amavam, porque ele era bom, de alguma forma, pra elas. Ao contrário do crime bárbaro que havia cometido, João não era detestável.

Não quero me prolongar muito neste texto, mas não poderia me esquecer de falar de Liz. A correria da nossa rotina nos impede de reparar nas pequenas coisas. Mas, todos os dias, Liz me lembra que o amor ao próximo é importante. Todos os dias, quando ela sai de casa, dá bom dia pra Rai, o porteiro. Dá um abraço forte na moça que limpa a escada do prédio e a chama de Loloca, seu apelido carinhoso. Às vezes me acorda às sete da manhã pra dizer que está na porta da minha casa, porque queria ver meu sorriso. E eu penso “Quem, em sã consciência, atravessa a cidade tão cedo dentro de um ônibus lotado apenas pra ver o sorriso de alguém?”.

Então, pare de pensar que o ser humano é detestável, porque eu quero seguir com minha esperança de que é plantando amor que se colhe amor. E de que o mundo é repleto de pessoas boas; imperfeitas, é claro, mas em constante evolução. Não fecho meus olhos para a maldade que há nele e nem posso me permitir viver num conto de fadas, seria fácil demais. Mas sigo conhecendo pessoas que me proporcionam os mais diversos ensinamentos e que me fazem continuar acreditando na beleza de estar vivo.

E, a elas, entrego minha admiração.

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