Papo com a leitora: Layza e a descoberta que não poderia engravidar Esta foto é sua?

Papo com a leitora: Layza e a descoberta que não poderia engravidar

Oi Fred, é com muita coragem que venho compartilhar com você um “segredinho” meu, e como eu vejo a vida.

Tenho 22 anos e desde meus 15 anos descobri que tenho uma síndrome rara chamada Rokitansky, que nada mais é que a ausência de útero. Para maioria das mulheres enfrentar isso não é fácil, e até hoje eu tento lidar com isso. Dizem avós, mães e tias que as filhas provavelmente menstruam de acordo com a mãe ou mulher mais próxima da família, minha mãe foi aos 13 e eu supostamente fui aos 15 anos. Mas até hoje minha ginecologista não sabe explicar o porque do sangramento, pois toda mulher sangra apenas porque há descamação do útero – o que eu não tenho. Minha “menstruação” na época, muito rala, durou 4 dias. Quatro dias porque eu forcei muito a barra, talvez porque eu não aguentava mais a pressão da pergunta porque eu não havia menstruado. Eu senti dores de cólica e a partir daí comecei a ir na ginecologista.

O mês seguinte nada de menstruação e isso decorreu por vários meses. No terceiro mês que não apareceu nenhum tipo de suspeita de sangramento que começamos a busca. Não demorou até chegar a conclusão, foi 1 ano de muitos exames e foi o ano mais difícil da minha vida. Eu era muito inocente e nunca suspeitei, pelos tipos de exames que eu havia feito, que eu não tinha útero, então foi um choque. Minha família mais próxima e amigos ficaram sabendo antes de mim.

Não foi fácil pra minha mãe receber uma notícia dessa, e então precisou de apoio contando para os mais próximos mesmo antes de me contar a notícia. Isso mexe com a autoestima de qualquer mulher, com o sentimento do ser humano que cresce ouvindo dizer que mulher foi feita para gerar filhos. Minha ginecologista foi clara, direta e sensível ao me dar a notícia, “você nunca poderá gerar um bebê”! É forte uma adolescente de 15 anos ouvir essa frase, na verdade lá na hora eu não assimilei muito as coisas, mas quando sai do consultório parecia que onde eu pisava o chão se abria. Mas não acabou por aí, eu tive que conviver com esse fato todos os dias durante mais 1 ano com mais uma porrada de exames mas enfim uma luz no fim do túnel: posso ter filho porque meus óvulos são perfeitos. E assim se explica todas as vezes que eu fiquei triste do nada e com uma vontade incontrolável de comer chocolate, dor nos seios, todo o inchaço… Graças a Deus eu tenho minha fé e amigos que eu pude e posso contar até hoje, sem falar na família que é minha base, minha mãe que é tudo pra mim, é uma guerreira, uma mulher maravilhosa que eu não sei agradecer tudo que fez por mim.

Eu sempre fui muito complexada desde quando eu não sabia da síndrome, não ajudou nenhum pouco na época saber, mas eu resolvi não ter dó de mim, não questionar mais Deus, do porque disso ter acontecido, o que será que eu fiz, etc. Antes mesmo das pessoas me julgarem eu sempre me julguei muito, mesmo não tendo motivos nenhum para isso. Parei de ter medo de julgamentos onde não vão nem ao menos me ajudar a mudar, prefiro assumir minhas decisões, meus problemas sem pessimismo. Já vi depoimentos de mulheres que passaram pelo mesmo problema que o meu, e todas tiveram algo em comum, aceitaram o problema e acharam a solução, encararam com leveza e souberam que tudo tem jeito quando quer muito, só não pra morte. Eu só tive um namorado até hoje, e ele foi importante pra minha aceitação de mulher para encarar esse problema, porque um dos meus medos era que com quem eu tivesse não conseguisse me aceitar por isso. E hoje vejo isso como uma grande bobagem.

Para terminar, minha intenção com isso é poder ajudar passando a ideia que qualquer tipo de discriminação por conta dessa síndrome é pura ignorância de alma. Falo sem medo, é de quem tem alma pequena sim e não sabe ver as coisas de outra maneira. Todo mundo, têm problemas, talvez maiores pra alguns, menores para outros, mas não deixam de ser problemas, e somos capazes de enfrentá-los e ser maiores que eles. O importante é saber enxergar as oportunidades e parar de achar que não vamos conseguir, se soubéssemos o poder que cada um de nós temos viveríamos mais e melhor. Não se deixe desesperar, lamentar, perder a fé e parar de sonhar.

Obrigada pelo espaço Fred, obrigada por ser tão atencioso com seus fãs (por ter respondido meu inbox, retweetado uma coisa minha do seu livro hahahahah, aquela né?!!!) e por me arrancar um sorriso ou dois.

Beijos, Layza.

layza

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Puts Layyyyza – com vários ípsilons mesmo – que delícia ler a tua história!

Sabe, às vezes, pensando na varanda da minha casa, reflito como o mundo cobra muito da gente. Homens têm que querer sexo sempre, mulheres têm que ter filhos, ser criança é a melhor fase da vida, idosos são incapacitados… E assim por diante. Tantas verdades absolutas. E caso o percurso da nossa vida tenha o privilégio de desviar da curva natural, nos olham com olhares de questionamento e, às vezes, até dó.

Como homem e, sem útero – até onde sei –, confesso que para mim é difícil mensurar o sofrimento e os anseios que se passaram por ti. Acredito, no fundo, que só nós sabemos o mistério que realmente somos. O que sentimentos, como sentimos, o que queremos, como queremos…

Saiba que tens a minha admiração por dividir uma história tão intima aqui. Sei que para os outros, ocasionalmente, pode parecer besteira, mas, para gente é o nosso mundinho, não é? E se cada um pudesse se doar a entender um pouco do mundinho dos outros…

De qualquer forma, a vida é isso: riachos de dúvidas, mares de anseios e cachoeiras de arrependimentos. Então, que aprendamos a nadar, não é mesmo? Haha ;)

Obrigado por compartilhar tua linda e tão intima história! Torço para que você consiga realizar teus sonhos e siga sempre assim sorridente! Prazer enoooorme em te ter aqui conosco!

AGORA VAMOS PARAR DE CHORORÔ (se me permites a licença poética) E VAMOS PENSAR EM COMIDA:

nutella11

Se você quiser enviar suas histórias, seja engraçada, surpreendente, bonita, triste, sexual, de amor, envie para: contato@entendaoshomens.com.br com o título “Papo com a leitora: + Título” e um breve resumo da história antes do texto. Ah, e se tiver mande imagens. Queeeeeeem sabe essa ideia não pega? Ihaaaa

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