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Por um mundo com menos amores por conveniência

Vivemos em um mundo de infinitas obrigações desnecessárias: Acorde cedo, trabalhe oito horas por dia, seja educado, beba socialmente, ame cachorros, tenha filhos, seja um cidadão assalariado e respeitável. A impressão que se tem é que a monotonia é requisito indispensável pra ser aceito no mundo.

E as pessoas vão vivendo por conveniência, entregando-se, sem, muitas vezes, se dar conta, ao que o resto do mundo lhes exige, enquanto calam, com um gemido sofrido, os sonhos da própria alma.

Em meio a uma vida inteira construída à base de conveniência, é no mínimo lamentável que muitos ainda amem por conveniência. Ainda procurem uma moça gentil, doce e feminina, que fale baixinho e seja fácil de agradar. Um rapaz que trabalhe e que agrade seus pais, que seja limpinho e não tenha vícios.

As pessoas insistem em enquadrar o amor – um sentimento tão sublime quanto incontrolável – à monotonia dos seus padrões. Querem um amor por encomenda, onde especifiquem as dimensões e a data de entrega, quase como comprar uma cômoda nova. É de uma estupidez quase patética abandonar a oportunidade de viver loucuras memoráveis em nome de uma relação que se encaixe nessa nossa irritante zona de conforto.

É por isso que o amor – daqueles que inspiraram os mais bregas e ao mesmo tempo sensacionais romances do século passado – está em extinção. Daqueles amores exagerados, das mocinhas que morriam em nome de seus romances proibidos, dos rapagotes que abandonavam suas vidas de cidadãos respeitáveis pela mulher errada, mas que, justo por ser errada, lhes parecia tão certa.

Tenho saudades dos amores que não obedeciam regras, que pulavam janelas altas em vez de entrar pela porta na frente com a gravata bem posicionada e os sapatos engraxados. De quando as pessoas se deixavam controlar pelos sentimentos em vez de querer controlá-los.

Me pergunto, lamentando, o que vai ser da poesia, da filosofia de mesa de bar, e das serenatas de amor cafonas quando todo mundo aprender a amar por conveniência, como tanto se tem tentado. Como vão terminar essas paixões de cabaré, quando todos os homens quiserem uma mulher meiguinha, bonitinha, respeitável e tão no diminutivo? O que será dos nossos adoráveis cafajestes, que se aposentam sem pestanejar quando encontram uma mulher que lhes acelera o coração, seja ela conveniente ou não?

Isso de que alguns novos casaizinhos sempre se gabam não pode ser amor – ou então eu já não o reconheço mais. Isso de encontrar alguém no seu perfil, a quem você possa se ajustar, pra dividir domingos preguiçosos e sem nenhuma emoção não é o amor que inspirou Chico e Drumond, eu lhes garanto.

Não se ama o outro porque ele é um rapaz de bem, bem-humorado e um bom genro. Não se ama porque ela bebe pouco e sabe se portar em eventos sofisticados. Não se ama porque ele tem modos à mesa, porque ela sabe dançar, porque gosta dos mesmos filmes que você.

Você o ama pela sensação que te dá quando ele toca suas mãos. Ama-se pelos olhos, pelo cheiro da pele, pelo gosto da boca. Ama-se pelo que não se pode identificar, não se pode explicar, não se pode traduzir. Ama-se os detalhes indecifráveis do outro – como o modo como ele traga o cigarro, o jeito como tira os sapatos, o modo como move o corpo quando ri.

O amor não é um contrato, não aceita termos de uso ou escolhas convenientes. Não dá pra usar “amor” como argumento de pesquisa. Não dá pra abrir um processo seletivo e analisar os candidatos.  Não dá pra escolher o amor – ele precisa te escolher.

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