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Quero recomeçar

Estou de malas feitas. As tuas, não as minhas, numa das mais tristes despedidas que estes meus olhos castanhos já ousaram presenciar. Estou, nesta fração de segundos, te dizendo adeus com o coração sangrando, com o peito resvalando, com as forças dos punhos faltando. Vá embora. De uma vez por todas, vá embora.

Não sei se você, assim como eu, consegue entender o que é ter sua energia sendo sugada, sendo drenada para uma espécie de abismo. Não sei se você entende como é ter a tua coragem rasgada, a tua vontade anulada e substituída por sentimentos como medo, insegurança. Instabilidade. Instável. É assim que me sinto. Longe de tudo aquilo que simboliza paz para mim.

Sabe, existem pessoas de todas as formas, dos mais diversos tipos. Algumas muito parecidas com você. Uma espécie de personagem de si mesmo que se diminui para não doer. Que não ama com medo de se machucar. De se ferir. De ter o seu coração de louça espatifado em plena sala de casa. Pelo chão do quarto. Pelas lágrimas depositadas nos travesseiros.

Decidi que era a hora certa para me libertar de tudo isso, porque já não era mais uma questão de escolha. Preciso me livrar desse peso. Dessa necessidade de agradar. De ser engraçado, conveniente. Isso tudo estava pesado demais para mim, percebe? Eu sei que não. Mas meus ombros já não suportavam mais.

Às vezes, me pego chorando, derramando pranto a troco de nada. Sem nenhum motivo aparente. Até que você me vem à cabeça. Uma perfeita armadura. Intacta, reluzente, mas fria. Insensível. Incapaz de se emocionar com o mais ridículo dos filmes, com uma história de superação, com a sua própria vida. Dormente. Adormecido.

Decidi que não quero mais isso. Que não posso mais fazer parte desse teatro. Dessa novela. Dessa série onde eu mesmo interpreto dois personagens. O vilão e o mocinho. Que duelam para habitarem o mesmo corpo. Para sentirem o mesmo ar que preenche os pulmões, para comandar as mesmas reações diante das intenções. Para dar as cartas depois de cada jogada. Que quer assumir o controle, mesmo estando ladeira abaixo.

Vá embora. De uma vez por todas, vá embora. Estou de malas feitas. As tuas, não as minhas, numa das mais tristes despedidas que estes nossos olhos castanhos já ousaram presenciar. Preciso me desprender dessa parte estragada de mim mesmo que, com o passar dos danos, dos enganos, das más experiências, apodreceu.

Só Deus sabe como é triste reconhecer que se tem uma parte podre dentro do peito. Mas só Ele será testemunha de toda a minha luta para me recompor. Para me restaurar. Me regenerar. Para amar sem medo. Para me entregar sem culpa. Para aceitar que amores perfeitos podem até não existir, mas valem a pena serem procurados. Vividos. Cuidados. Sentidos.

É isso. Eu quero voltar a sentir de novo. Quero voltar a me emocionar. Quero recomeçar. Mas sem pressa. Sem essa vontade louca de ser par. De ser casal. Quero redescobrir as belezas da vida. Com ou sem alguém, quero ser capaz de acordar sorrindo. De dormir depois de ter a certeza que o amanhã será melhor que hoje. Por isso, vá embora. Vá embora, metade de mim que não me pertence. Que não é feliz.

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