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Relacionamento é coisa séria!

“E aí, irmão, como você está?”, eu perguntei a um amigo que, felizmente, reapareceu em minha vida. E ele, depois do tradicional “Estou bem!” e de me contar coisas a respeito da empresa em que agora trabalha, atualizou-me sobre o recém-alterado estado civil dele: Cara, quando notei eu já estava casado. Acredita?”. “Claro que não!”, eu respondi, e logo emendei: “Como é que alguém, com a mesma naturalidade que descobre estar com a braguilha aberta, nota que está casado?”. “Juro que eu não sei.

As coisas evoluíram rapidamente! Primeiro, com o auxílio de calcinhas, camisolas e Havaianas, ela conquistou território em meu armário. Depois, utilizando a mesma tática usada por crianças que desejam algo, ela passou a enfiar, forçosamente, palavras tendenciosas (igreja, vestido, sonho…) em quase todos os nossos diálogos. Por fim, os filmes em DVD perderam espaço para o programa Chuva de Arroz, e, em meio às minhas revistas que contêm mulheres nuas, misteriosamente, apareceram impressos cheios de noivas cobertas por longos tecidos brancos”, ele me respondeu. E o desabafo continuou: “Eu não queria me casar, pois estou totalmente focado em minha evolução profissional e, sinceramente, não sei se é com ela que eu desejo construir um futuro, mas cedi à pressão diária e disse ‘sim’ ao padre!”. “Graças a atitudes como a sua, irmão, eu vejo casais se afogando em poças de tédio, enriquecendo advogados especializados em divórcios e achando que um curso de pompoarismo é a chave para salvar uma relação que começou por impulso, comodismo, carência, ilusória falta de opção ou por qualquer outra coisa que, definitivamente, não deve motivar um laço!”, Pensei em dizer. E enquanto tomava um longo gole de cachaça mineira, senti-me bem por achar que os relacionamentos amorosos, de qualquer tipo (namoro, noivado e casamento) devem ser encarados com extrema seriedade.

“E por que os relacionamentos têm sido tratados de maneira tão superficial, sem seriedade e com muita irresponsabilidade?”, vocês me perguntarão; e eu, nos parágrafos abaixo – valendo-me de conversas que tive com apressados que sentiram o gosto amargo de decisões tomadas cruas, de artigos que li e da minha incansável vontade de conseguir decodificar o que há de mais abstrato no interior do ser humano – tentarei responder; e espero que seja suficiente para que vocês, queridos leitores, passem a visualizar a seriedade das relações.

Vivemos em uma época em que amizades são desfeitas por meio do simples apertar de um botão, em que longos namoros são terminados via WhatsApp e na qual, apesar de estarmos sempre conectados a diversos seres através de redes virtuais, a solidão parece estar em processo de crescimento acelerado. Já pararam para pensar nisso?

Eu já. E concluo que um dos fatores – talvez o principal – responsável por nos fazer encarar os relacionamentos com a mesma seriedade que usamos na hora de encarar as palavras do João Kléber é a possiblidade de dizermos “É só isso. Não tem mais jeito. Acabou, boa sorte!” por meio de meios que nos permitem fugir dos olhos da pessoa amada – ou nem tanto – se enchendo de lágrimas. A mesma tecnologia que é capaz de facilitar encontros e de diminuir distâncias também originou a possibilidade de empregarmos atitudes covardes na hora em que desejamos descartar pessoas de nossas vidas.

Os relacionamentos que antes só podiam ser vividos por pessoas corajosas e dispostas a enfrentar os riscos inerentes às uniões presenciais, hoje, certamente, podem ser experimentados também por pessoas medrosas que preferem amar sem sair de casa e sem ter de enfrentar as dores que nascem quando presenciamos a falta de paixão refletida nas retinas do ser amado. Em 2016, o que parecia impossível em 1980 (relacionar-se sem se molhar) já possível! As pessoas estão atualizando namorados da mesma maneira que atualizam aplicativos no celular, pois os laços, aqueles que são dados em terrenos imaginários e em mundos onde não há pele com pele, já nascem frouxos e são, propositalmente, facilmente desatáveis.

Outro motivo que tem feito com que as pessoas pensem apenas meia vez antes de entrar em uma relação é a o “imediatismo” evidente em nosso tempo: apesar da expectativa de vida do ser humano estar em constante elevação, na hora de tomarmos importantes decisões, em vez de pensarmos e repensarmos nos prós e nos contras da coisa, nos deixamos contaminar pelo espírito “tudo ao mesmo tempo e agora” que é característico do momento em que vivemos, e, como se o mundo fosse acabar caso a nossa resposta não ocorra imediatamente, dizemos “sim”, com pavor de que tudo mude irreversivelmente nos próximos segundos.

Hoje tudo parece criado para saciar a nossa pressa que parece não ter fim: o cabeleireiro tem ido à casa do cliente que, por achar que é muito difícil se concentrar em filmes longos, prefere assistir aos vídeos do YouTube e ler notícias resumidas em formato de tweet. E demonstrando a mesma pressa, a meu ver desnecessária e muito perigosa, pessoas agem como se estivessem esfomeadas por parceiros: poucos são aqueles que são capazes de enfrentar o pavoroso (não para quem tem amor-próprio) fantasma solidão e que têm paciência para deixar o papel de cupido nas mãos do acaso; deve ser por isso que os sites que prometem noivos “pra ontem” estão faturando rios de dinheiro e que gostos similares, descobertos através de olhadelas em perfis, têm bastado para que pessoas digam: “Encontrei a minha alma gêmea e o cara com quem eu quero ter filhos e filhotes de labrador”. Cuidado! Algumas etapas precisam ser mantidas para que a decisão seja tomada de maneira segura e para que o seu futuro não seja modelado por impulsos irracionais do seu presente.

Outra razão bizarra pela qual as pessoas entram em relacionamentos furados é a violenta imposição social e cultural de passos considerados “obrigatórios” para aquele que deseja ser visto como alguém que completou o “ciclo humano” (como se existisse um ciclo padrão e funcional para seres tão particulares). Como assim? Saia mais de três meses com um cara e, certamente, vai se deparar com perguntas chatas como: “Já não está na hora de namorar?”. Ainda não entendeu o que eu quis dizer com “imposição social e cultural”? Aí vai um novo exemplo: namore mais de três anos e logo vão dizer que você está sendo enrolada ou que está na hora de casar. Estou errado? Mas quem disse que as coisas precisam seguir sempre a mesma lógica ou que você, para ser vista como uma mulher bem-sucedida no âmbito do amor, precisa seguir os mandamentos daqueles que burocratizam as relações? Não sei. Só sei que a pressão social tem contribuído – e muito – para que pessoas se casem e expliquem tal fato dizendo: “Casei-me, pois já estava na hora!”. E desde quando existe hora exata para algo que depende de fatores complexos como o “amor” e a “vontade real de dividir tudo com alguém”? E daí que a sua vizinha se casou depois de sete meses de namoro? E daí que a sua prima, depois de oito beijos, um chupão e uma pegadinha na piroca (por cima da calça) começou a namorar? Pense bem naquilo que realmente condiz com o SEU relacionamento e esqueça as pessoas que adoram meter a colher em sua vida. Pois na hora que olhar para o lado e perceber que está presa (por uma aliança) a um pançudo que não está nem aí para você, certamente, os palpiteiros nada poderão fazer em prol da sua liberdade.

Por último, o quarto e não menos importante motivo pelo qual as pessoas, de repente, percebem-se dividindo a cama com quase estranhos: a incapacidade de dizer “não”. Conheço muitas pessoas que, por medo de gerar frustração ou por alguma espécie de TOC que impede o uso da palavra “não”, aceitam todo e qualquer convite, mesmo quando não querem ir a algum lugar ou quando não estão verdadeiramente a fim de juntar as escovas com alguém. O que vou dizer a seguir, certamente, parecerá um conselho tecido por um ser insensível, mas, acredite, não é: caso ele (o cara com quem está saindo há seis meses, mas que você definitivamente não imagina como seu marido) apareça perfumado, ajoelhe-se no chão da praça de alimentação do shopping, abra uma caixinha preta aveludada e peça você em casamento, não hesite em dizer “não”. Estou falando sério! Você não precisa, para negar o pedido, dar uma bica na aliança e jogar o seu Big Mac na cabeça dele; mas pode, como em todo convite, dizer “não” e evitar que o seu futuro seja construído à base de covardia. Eu sei que ele ficará magoado, mas sei, também, que será muito pior quando ele perceber que casou com uma mulher que não suporta mais ficar perto dele.

Gente, eu não sei (mas gostaria de saber) o que vocês pensam sobre o tema, mas para mim, de verdade, assumir um relacionamento é algo que deve ser muito bem pensado, pois, inevitavelmente, coloca em risco o coração de alguém. E não é só isso: quando você topa um relacionamento tapa-buracos, inevitavelmente, fecha as portas para outras possibilidades que poderiam torná-la uma pessoa muito mais satisfeita e completa por matéria que preenche de fato.

Como eu já disse em outro texto, caso não queira ter um treco, o ideal é não levar a vida demasiadamente a sério. Porém, quando o assunto é assumir uma relação, pense bem e diga “não” caso você esteja apenas disposta a brincar.

Brincar é muito importante para a sua saúde, não nego, mas fazer joguinhos com o coração dos outros – e com o seu – não faz nada bem.

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