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Eu na terra do Papai Noel – A experiência de um intercâmbio

Provavelmente inspirado pelos últimos textos do Fred (Elboni) e do Leo, em que havia um cunho mais pessoal, resolvi compartilhar com vocês algo que provavelmente foi uma das melhores, se não a melhor experiência da minha vida.

Lembro-me como se fosse ontem: o ano era de 2008 e meu pai “chato” que só estava insistentemente me incentivando a fazer um intercâmbio. Do alto de meus 22 anos naquela época eu ainda tinha certo receio. Por que eu iria sair daqui, do meu conforto, amizades, para me enfiar em um canto qualquer lá fora? Sair da minha zona de conforto? Que bobo eu era, confesso…

Devido aos acordos da minha universidade/curso, eu tinha duas opções básicas entre França e Alemanha, sendo a segunda mais óbvia uma vez que eu já falava bem o idioma, entre outros motivos. Mas eis que naquele ano foi aberta uma oportunidade de ir para a Finlândia, mais especificamente na região norte. Não tive muito tempo para pensar, pois o curso começaria em poucos meses, dando pouco tempo para decidir, uma vez que precisaria correr atrás de várias coisas para efetivar. Achei que o curso tinha mais a ver com o que eu queria profissionalmente e aceitei o desafio.

predio

Agosto, fim do verão europeu e lá estava eu naquele lugar estranho. Um prédio que mais parecia um presídio e chego a minha nova morada, um enorme apartamento de 18 m² onde duas pessoas dividiriam. Com um colchão estranho, sem roupa de cama e travesseiro tive minha primeira noite de rei onde dormi cerca de dezoito horas, fruto da soma de péssimos voos com fuso horário. Na primeira semana fui correr atrás destas questões de moradia, onde consegui trocar por um apartamento um pouco maior, além de arranjar meu novo meio de transporte, uma bicicleta.

Devo admitir que ao contrário do imaginado, levei pouco tempo para me adaptar à nova vida: vivendo com dinheiro contado, usando a bicicleta como único meio de transporte (inclusive para a balada, onde dávamos “carona” para as gurias!) e sem falar uma palavra em português.

A Finlândia é um país de belezas únicas e com muitas peculiaridades. A população é um pouco estranha para nós brasileiros, entretanto na medida em que fui conhecendo e conversando com finlandeses pude começar a julgar menos e compreender mais. Apenas para exemplificar, os suicídios do país pouco tem a ver com a falta de luz como sempre pensei, mas muito mais pelo idioma.

Aprendi que os idiomas também influenciam na forma com que pensamos, e eles possuem um idioma muito introspectivo, levando em casos extremos as pessoas mais sucintas a se suicidarem. Aliás, não é a falta de luz que os incomoda, mas sim o excesso. Descobri que o mês de março (início da primavera) é a época do ano em que mais ocorrem esses casos.

universidade

Viver em um ambiente internacionalizado também tem suas vantagens, o prédio onde morava pertencia à universidade e basicamente pessoas de toda a Europa estavam por lá. Um pouco de gastronomia, um pouco de cada idioma (basicamente só palavrões e besteirol), além é claro de várias festas.

Alguns pré-conceitos também foram vencidos, e quando digo preconceito falo exatamente da forma que coloquei, pois os franceses não eram arrogantes, os italianos não sabiam cozinhar tão bem, os alemães não são frios e por aí vai. De forma análoga também ajudei a vencer pré-conceitos das pessoas sobre o Brasil/brasileiros, e chega a ser engraçado que quando estamos aqui “metemos o pau” no país sem pestanejar, entretanto uma vez fora aprendemos a exaltar também. Aprendi a dar valor a algumas coisas que só temos por aqui.

Fato é que foi uma experiência tão intensa e não há um único dia em minha vida que eu esqueça algum episódio, além de ter me transformado em outra (e melhor) pessoa.

Concluindo, talvez a errônea ideia que temos quando pensamos em intercâmbios seja de que só iremos aprender muito sobre outro idioma, sobre outras culturas, etc. É claro que isso ocorre, e muito. Assim como da mesma forma houve no meu caso um aprendizado muito legal a nível acadêmico/profissional. Entretanto, devo dizer que um intercâmbio é muito mais uma viagem para dentro de nós mesmos, onde somos forçados a amadurecer rapidamente, ou seremos “engolidos” pelo mundo, da mesma forma com que medos, receios e preconceitos são vencidos. E para isso não precisa ir tão longe como o polo norte, como foi o meu caso, basta apenas sair de casa. Dentre todas as pessoas que conheço, jamais vi alguém voltar pior de um intercâmbio.

Portanto fica a minha palavra de incentivo aqui a todos que pensam um dia em fazer um intercâmbio! Até porque como dizia Albert Einstein: uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.

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