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Só nos apaixonamos por quem não conhecemos direito

O Alain de Boton diz, em Essays in Love, que “só podemos nos apaixonar sem conhecer por quem nos apaixonamos”. Na verdade a paixão verdadeira raramente tem como alvo alguém que conhecemos bem. Geralmente nos apaixonamos no estágio de ainda conhecer a pessoa, quando muito sobre ela ainda nos é desconhecido, misterioso. Essa é a paixão real, a paixão que, como é inerente à paixão, é irracional, pulsante, instinto puro. Já a paixão que vem com o tempo, conforme conhecemos o ser amado, não é paixão, é a evolução natural fazendo uma escolha que, apesar de inconsciente, é racional. Somo nós escolhendo um par que, racionalmente, combina mais conosco e aumenta probabilidade de um relacionamento bem sucedido. Não é paixão, é uma escolha racional, baseada não no sentimento e no “instinto”, mas na probabilidade de sucesso. Pode ser certo? pode, até é, mas não é a paixão pura.

A maior e principal memória que tenho da minha avó, falecida há um ano, era dela sentada na poltrona dela fazendo Crochê. E uma frase constantemente repetida por ela só foi me fazer sentido anos depois. “Leonardo, para de encher o meu saco porque se eu errar eu vou ter que começar tudo de novo!”. Eu achava que era uma espécie de autopenitencia, perfeccionismo, algo que faria ela, conscientemente, começar tudo de novo se errasse.

Mas não. O crochê é feito de maneira concêntrica, ou seja, a partir do centro. Se você faz camadas, sendo a primeira do centro 1, e a última, a 10, e você percebe que errou na camada 4, você necessariamente vai ter que simplesmente desfazer tudo o que você fez a partir da 4, ou seja, vai ter que desfazer as camadas 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10. A minha avó, sem saber, falava também sobre a paixão. Se a sua paixão está na camada 1, a mais perto do centro, e os erros e afinidades estão nas demais camadas, qualquer erro que se cometa a partir daí é facilmente remediado, sem atingir a camada da paixão. Mas se você coloca erros e convivência nas primeiras camadas e a paixão na camada, digamos sete, imaginemos que haja um erro na camada cinco. Para que esse erro seja resolvido ou até mesmo esquecido, você vai ter que passar por cima da camada da paixão. E, se você desfizer essa camada, pra refazer, pode não ser tão fácil.

Quando você se apaixona antes de conhecer alguém profundamente, a racionalização não atrapalha tanto. Quando você descobre um defeito grave ou quando vocês têm um problema e você já está apaixonado, o pensamento é “não tem problema, nós nos amamos, vamos resolver juntos”. Mas quando a paixão vem e você já conhece o problema, o pensamento é “será que nosso amor vai sobreviver a isso”? Não parece mas é muito diferente, uma foca na força de superar qualquer coisa, outra foca na dúvida. A paixão racional é frágil, tenta bater de frente com obstáculos. A paixão pulsante e pura tenta sobrepor obstáculos, conviver com eles em vez de destruí-los, porque, afinal, já estamos apaixonados mesmo. E acreditem, ver um amor se desfazer camada a camada por causa disso dói muito mais do que as chineladas que a minha avó me dava quando eu estragava o crochê dela.

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