Sobre o tique azul do whatsapp, e o tique de carência da nossa geração Esta foto é sua?

Sobre o tique azul do whatsapp e o tique de carência da nossa geração

Eis mais recente assunto trágico-importantíssimo-inacreditável-digno-de-compartilhamento da internet: o tique azul do whatsapp, que permite que os usuários sejam notificados quando seus amigos lerem suas mensagens.

A atualização tornou-se assunto de uma maneira tão viral quanto as eleições presidenciais ou a infidelidade de um humorista e, convenhamos, qualquer ser vivente em sã consciência precisa se perguntar – Por quê?

Falta de assunto, talvez. A geração das redes sociais viraliza absolutamente tudo porque não há nenhum assunto suficientemente interessante para ocupar-lhes o tempo por mais do que alguns dias. Tudo vira motivo de um milhão de memes, postagens, piadas, desabafos e todo tipo de conteúdo capaz de chamar a atenção (até mesmo uma ingênua atualização de um aplicativo popular).

Receio, no entanto, que seja mais que isso. O que mais me parece ter causado tamanho estardalhaço é a possibilidade de controlar o outro – como se a tecnologia já não nos proporcionasse isto tanto quanto é possível.

Soou-me preocupante esta constatação. Uma geração que explode de alvoroço e contentamento quando pode saber se o outro viu sua mensagem, para saber exatamente quanto tempo levou para respondê-la é absurda. É a inadmissível idéia de que o outro nos pertence preponderando mais uma vez.

Preocupa-me uma geração que tanto se diz libertária cobrando amor e atenção com tamanha incoerência. Uma geração que se diz livre para conduzir suas relações e fazer suas escolhas se deixa aprisionar pela obrigação de interagir com o outro, como se fosse absolutamente comum.

Acaso nosso senso de liberdade fosse realmente tão admirável, saberíamos que o outro pode ou não nos responder (e nos ligar, e nos visitar, e nos amar), independente da cor do seu tique. Pararíamos de cobrar elogios, de reclamar por ligações não atendidas, sentimentos mal correspondidos e tiques azuis ignorados.

Entenderíamos que o amor de nossos amigos por nós não depende da cor do tique ou de quantas vezes o celular tocou até que ele atendesse – ele poderia estar dormindo, ouvindo música alta, vendo desenho animado, ajudando uma velhinha a atravessar a rua ou simplesmente não estar a fim de atender ou responder – e isto não muda o amor que sente (ou que não sente). Isto é a prova de que somos livres para fazermos o que bem entendermos e na hora em que bem entendermos.

Ou isso ou o interlocutor do tique azul pode realmente não te querer por perto. E, se é assim, o caminho é e sempre será o mesmo: retirar-se. Estar perto de quem nos quer por perto. E, para quem tem o mínimo do bom e velho semancol, saber quem nos quer bem é fácil, mesmo sem tique azul. Sente-se no olhar, no tom da voz e nas conversas monossilábicas. O tique azul é, para os carentes, só mais uma maneira de enxergar claramente quem não os quer por perto (mesmo que isto continue a não lhes dizer nada).

E é esta, lamentavelmente, a inegável realidade desta geração: precisamos de tiques tecnológicos que nos avisem sobre quem realmente nos dá atenção – em vez, como antes, captar isto com a boa e velha sensibilidade. Precisamos de novas ferramentas para cobrar e ser cobrados, em vez de estar e deixar estar. A tecnologia tem destruído nossos tiques azuis naturais. Restou-nos o lamentável tique de carência de uma geração que ainda troca abraços por emoticons.

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