Esta foto é sua?

Controlar as frases, os abraços e os desejos nunca foi comigo

Nunca fui de engolir palavras, sabe. Essa história de controlar as frases, os abraços e os desejos nunca foi comigo. Faço coleção de papos definitivos. Coloco pingos em is reais e às vezes invento alguns para pintar.

Por isso é difícil isso de começar a escrever pra ti. Engasga tudo aqui dentro porque não sei se os nossos is de fato existiram e não sei também de que cor quero pintá-los. Não que eu te queira de volta. Acho que esse é o principal problema: não te quero por perto – ao mesmo tempo em que sinto como se você fosse vital.

Essa repulsa é quase uma prece: deixe que eu te odeie, mas não vá. Chega bem perto, me abraça. Mas não me pede pra entender.

Sabe, minha trilha sonora calou e agora eu danço no silêncio. Não tem ritmo pra seguir, melodia pra acompanhar. Só bailar com o tempo, pra ver se transpiro as palavras que nunca foram ditas: será que sim? Será que serão? Se não? Na falta de compasso dos meus passos, sobram os descompassos do meu peito leve de palavras e pesado de saudade do que poderíamos ter sido.

Tudo é silêncio e nem faz sentido gritar. Não ouço meus passos, não sei onde piso. Sei que corro perigo e, ah, como é grande o temor! Tremo. Trema.

Até tentei parafrasear alguém, sei lá. Teve quem chegou mais perto – “é sempre mais difícil dizer adeus quando não há nada mais pra dizer” – mas: não. Há o que dizer: há tanto tempo. Temos tempo. Tínhamos. O tic-tac virou bomba-relógio. Qualquer hora busco meus destroços.

De tanto calar minha alma ficou muda. Até o mar. Mar virou completo silêncio.

É difícil botar pingos nos is quando há o que dizer, mas não há mais como falar.

Comentários